Fora da casa da Barbie

Quando eu brincava de boneca, a Barbie branca tinha que beijar o Ken branco, e a negra o negro. Cada um com sua raça.

E não tinha essa de Barbie com Susi e Ken com Max Steel, isso não eram casais. Porque um casal era uma mulher e um homem que se amavam.

A Susi não usava as roupas da Barbie, porque ficavam justas e curtas; não ficava com o Ken no final, porque a Barbie era “mais gata”.

E a Barbie não podia beijar os Kens e o Max Steel, porque eles eram todos os caras da caixa de brinquedos. Ou um ou outro.

Uma vez fiz uma festa das bonecas ao redor de uma banheira de brinquedo, com a presença ilustre do meu irmão mais velho — que controlava o Ken. Na brincadeira, ele acabou dando mais atenção para a Susi do que para a Barbie. Simplesmente por ele quebrar esse padrão, eu quebrei o pau na Festa da Banheira, com direito a Susi voando para um lado e eu gritando indignada e revoltada para o outro.
“Consideramos justa toda forma de amor”

Quando eu criava um mundo para brincadeira, eu podia fazer dele tão irreal quanto quisesse. Mas, pelo contrário, eu copiava o mundo real nas piores coisas, sem mesmo ter noção disso.

Eu tinha toda uma sociedade preconceituosa na minha caixinha de bonecas.

Na época eu não sabia, para mim era simplesmente o jeito mais comum das relações amorosas acontecerem. Afinal muitos desenhos se preocupavam em mostrar um romance, mas não todos os sentidos que essa palavra abrange.

E não culpo quem produz esse tipo de conteúdo, pois só imagino o rebuliço que ia dar se mostrassem algo que saísse do padrão de família tradicional: relacionamentos entre pessoas de diferentes raças, formatos de corpo ou entre pessoas de mesmo sexo, e por aí vão as variedades de combinações.

Hoje porém, eu já vi um pouco mais fora da casinha de bonecas, e digo: Pode controlar à vontade quem a Barbie, a Susi, o Ken e o Max Steel beijam. Poque a vida deles é de brincadeira, mas a da pessoa do seu lado, não é.