Crime castigo: Sustento familiar nas mãos de crianças

Em Goiânia, todos os dias, é possível ver diversas crianças que por falta de oportunidades não vê outra saída a não ser trabalhar para levar comida a mesa
Victor ajuda a renda da família. Ele sai de casa todos os dias às 6h30 e pega três ônibus para chegar ao trabalho. Foto: André Costa — Diário da Manhã

A reportagem do Diário da Manhã identificou dezenas de crianças que trabalham todos os dias vendendo bugigangas nos terminais do transporte coletivo de Goiânia. Meninas e meninos, com idades de 8 a 18 anos, que exercem um trabalho anônimo para sustentar suas famílias. São pequenos homens e pequenas mulheres, que muitas vezes, abandonam a escola por imposição das circunstâncias da vida.

A realidade dessas crianças é muito diferente daqueles que estão empregados pelos programas sociais do primeiro emprego como o Pró-Cerrado, Jovem Aprendiz e tantos outros. O trabalho anônimo esconde diversos problemas e falhas em um sistema social que demonstra pouco ou quase nenhum afeto pelas crianças das periferias. O período de férias costuma dar uma brecha a mais para estes pequenos com estrutura familiar defasada e que precisam, de alguma forma, ajudar no sustento de casa e no próprio.

Victor tem apenas 11 anos de idade e é um dos maiores exemplos de superação e dedicação à família. Apesar da tenra idade, é dele, a maior responsabilidade: a de trazer comida para casa. Como muitos, ele sai de casa todos os dias às 6h30, passa pela rua de terra batida do setor Jardins Cerrado, onde mora, acompanhado apenas da poeira e do orvalho do alvorecer. A sua caixinha de isopor pendendo sobre o ombro direito e a mochila repleta de balas e dinheiro para comprar água e gelo. Victor pega três ônibus e passa por três terminais até chegar ao seu destino, a plataforma José Hermano.

Ele sai da plataforma em direção a um atacadista próximo e compra um fardo de água com 12 garrafas pelo preço de R$ 8 (oito reais), o lucro é pequeno, então ele tem que passar o dia todo vendendo para compensar. Na volta, seu corpo esguio passa por baixo da catraca e furtivamente aos olhos do guarda distraído, logo depois, sua caixinha de isopor é puxada para dentro também.

O ponto lotado e tumultuado é prato cheio de oportunidades para o garoto, mas também é sinal de muito trabalho a fazer para ele que, mesmo com o corpo raquítico, faz o altofalante da sua voz ser ouvida em meio a confusão e barulho dos passageiros. “Olha a água mineral, um real comigo, lá fora é dois. Tem balinha de eucalipto, só 50 centavos” grita a criança.

Apesar da dureza da vida, Victor está sempre com um sorriso no rosto e vários sonhos em mente. “Faço isso pra ajudar minha mãe e ajudar a sustentar minha irmã mais nova. Eu estudo, apesar das dificuldades e da falta de tempo. Penso em largar a escola e ter mais tempo pra ganhar mais dinheiro. Mas queria mesmo era ser bombeiro. Minha mãe trabalha limpando casa, costurando ou qualquer outra coisa que aparece. Não acho ruim de estar aqui, pelo menos ocupa minha mente com coisa boa”, lamenta o garoto.

O menino utiliza o tempo há mais das férias para trazer mais dinheiro para casa. Foto: André Costa— Diário da Manhã

Alguns, no entanto, se perdem nos vícios que as ruas e o trabalho pesado traz. Cigarros, bebidas e até mesmo drogas mais pesadas. Não é difícil ver crianças fumando nos terminais. Um grupo de cinco, sentados em uma mureta no Terminal Padre Pelágio saboreiam um maço de cigarro enquanto conversam como adultos enquanto as ferramentas de trabalho, suas caixas de isopor e caixas de balas, estão ao lado, esperando-os.

As cenas de abuso de drogas por parte das crianças exprimem uma realidade mais comum do que se pode imaginar. A miséria vivenciada por milhares de crianças nos Brasil as empurram para serem adultos prematuros. A forma como se expressam, como se movem e, principalmente, seus olhares são os reflexos dessa vida.

Pedrinho e seu irmão mais velho, Paulo, aproveitam o período de férias para ganhar algum dinheiro vendendo paçoquinhas e água. Andam sempre juntos, Pedrinho empurra um carrinho de feira enquanto não estão com o barril que utilizam para armazenar a água e gelo enquanto seu irmão leva uma caixa de paçoquinhas e balinhas Finni. “Estamos indo agora no centro buscar as mercadorias para poder vender. Nosso pai também é vendedor, ele ensinou a gente como faz pra ser bom, e ensinou a não abandonar os estudos”, relata o irmão mais novo.

Paulo não vê problemas em trabalhar e revela que gosta de vender. “Tenho 15 anos, ganho meu dinheiro. Não é ruim. Comprei até um presente para meu irmão e eu. As vezes eu tenho medo de alguns lugares, principalmente do Padre Pelágio (Terminal), lá tem muitas gangues que cometem assaltos, tem mortes diretos naquele lugar e sempre há disputa por espaço entre os ambulantes”, afirma Paulo.

Apesar de proibida a permanência de vendedores ambulantes nas plataformas do Eixo Anhanguera, os trabalhadores ignoram a restrição e seguem vendendo. Foto: André Costa.

Por trás dessas crianças trabalhando há um grande esquema de exploração. Pela ausência de uma estrutura familiar estável e a falta de uma renda, algumas se vêem obrigadas a ‘financiar’ sua caixinha de isopor e um fardo de água. “Eu não tinha dinheiro para comprar a caixa, o gelo e muito menos a mercadoria. Pedi ajuda a um senhor que me falou que compraria as coisas, mas que parte do dinheiro ficaria com ele. Eu tenho que vender muito pra compensar o dinheiro que fica com ele, e tem muitas crianças e senhores de idade que vendem assim, para outra pessoa”, confirma Victor.

Disputas e crimes

Os cenários de disputas do Terminal Padre Pelágio são assustadores. Na tentativa de amenizar os problemas resultantes da enorme quantidade de vendedores ambulantes dentro do terminal e das plataformas de embarque e desembarque, ações para retirá-los das dependências do terminal foram realizadas pela guarda de segurança patrimonial da própria concessionária que detém , no entanto, o quadro é o mesmo, milhares de pessoas trafegam nas plataformas disputando espaço com os vendedores.

Além do incômodo vivenciado pelos passageiros que pagam uma passagem cara, os usuários recebem de brinde um transporte público de péssima qualidade. A insegurança e o medo sentido na pele por quem viaja todos os dias para o trabalho, estudo ou um simples passeio, descrença qualquer usuário do transporte coletivo goiano.

Assaltos, arrastões, guerra entre gangues dentro dos terminais são experiências rotineiras experimentadas por quem frequenta um terminal. Por medo de sofrer represálias, quem trabalha no local quase não fala sobre o assunto, e quando fala, pede para não ser identificado. “Na quinta-feira de manhã, foi preciso retirar um vendedor ambulante do Terminal (Praça da Bíblia) pois uma gangue de sete pessoas vieram tomar o ponto dele sobre a pretensão de assassiná-lo a facadas caso não entregasse o ponto”, diz uma fiscal do terminal.

“É comum ver brigas aqui no terminal. A maioria das vezes acontece por causa de disputa por vendas ou lugar pra ficar aqui no terminal. Já presenciei duas mortes. Uma por briga de torcidas e outra por assalto. Desde que alguns grupos chegaram aqui no terminal, ninguém mais tem sossego, o risco de ser expulso daqui por eles é grande”, revela um vendedor ambulante do Terminal Padre Pelágio.

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