É preciso mentir com moderação

Donald Trump foi ridicularizado desde o momento em que anunciou a candidatura. As acusações são constantes e todos já conhecem: racismo, machismo, xenofobia, islamofobia, homofobia, KKK, relação com o assassinato de John Kennedy (mentira, isso foi o pai do Ted Cruz) e todas essas coisas das quais quem quer que tenha tentado fazer uma piada engraçada no Twitter também já foi acusado um dia. Contrariando todas as análises acertadas dos palpiteiros americanos e dos comentaristas da mídia chique, Trump deixou todos os seus adversários para trás e hoje já é favorito contra Hillary Clinton.

É claro que entra aí uma questão de estar minimamente sintonizado com o mundo real, de não ter a sua percepção da realidade intermediada por um pensamento afetado e guiado por conceitos abstratos — não falo aqui apenas da “tolerância” ou da “igualdade” dos progressistas, mas também dos “valores conservadores” dos pundits da National Review. Não à toa, o eleitor médio do Trump é o americano comum, o americano de classe média (que tem um significado completamente diferente da ideia pejorativa de classe média que se criou no Brasil), muitas vezes alvo de deboche por parte de jornalistas, politólogos e humoristas progressistas.

Se há uma coisa que caracteriza o povo americano é justamente a sua desconfiança em relação à mídia. Todos sabem quem é o candidato preferido do NYT, da CNN e da Slate — da Salon nem se fala, embora talvez seus jornalistas preferissem a destruição definitiva da América e do Ocidente como nós conhecemos. Todos sabem porque conhecem o histórico desses veículos e certas coisas podem ser percebidas nas entrelinhas com alguma boa vontade. Contudo, nunca houve uma campanha tão evidente e insistente contra um candidato como existe hoje contra Donald Trump. A Slate chega a fazer 4 ou 5 postagens/hora com críticas ao republicano, com questões que vão desde o fato de preferir McDonald’s a burritos à quantidade de laquê usada em seu último comício.

O caso mais claro e sério desse favorecimento aconteceu ontem, quando, ao comentar as acusações (por ora sem provas, diga-se) de que a invasão dos servidores do Partido Democrata para roubar informações teria sido resultado de uma aliança entre ele e Putin, Trump foi debochado e desafiou a inteligência russa a hackear o email pessoal de Hillary para encontrar os 30 emails secretos que a candidata enviou a partir de sua conta pessoal. Não demorou muito para o NYT levar ao ar a notícia de que Donald Trump havia cometido um crime gravíssimo, um atentado à segurança nacional. Na pressa de veicular essa besteira, o jornal ignorou que 1) os emails estavam num servidor privado; 2) os emails (secretos) não deveriam estar ali; 3) se estavam, foi porque alguém permitiu que estivessem; 4) bom, nós sabemos quem foi esse alguém (dica: não foi o Trump); 5) esse alguém (e só esse alguém) cometeu um crime.

Aquilo que passou em branco pela mídia progressista poderia ser facilmente percebido por qualquer homem comum fora do estado de desespero em que os jornalistas do NYT estavam diante dos vazamentos por parte do WikiLeaks. Com a histeria do jornalismo chique, esse mesmo homem comum não só compreendeu exatamente o que o candidato republicano quis dizer como teve uma amostra clara de como o establishment tenta fazê-lo de bobo.

O salto de Trump nas pesquisas tem a ver com homens comuns e suas necessidades imediatas (que os jornalistas insistem em tratar com condescendências, como vítimas ignorantes do “populismo de extrema-direita”), não tenho dúvidas quanto a isso. Mas também tem uma relação crescente com pessoas que, imaginem só, não gostam de ser enganadas com tanta ênfase e desleixo. Muita gente já está cansada de saber que Donald Trump tem um cabelo engraçado, que gesticula demais ao falar (talvez o ítalo-americano em Little Italy até se identifique, sei lá) e que Mark Ruffalo e Lena Dunham não votarão nele enquanto o New Yorker faz um papel de Diário do Centro do Mundo americano tentando emplacar a ideia de que as conversas vazadas não têm nada de grave.

O ideal, claro, seria que não houvesse mentiras. Mas estamos falando de homens, de criaturas sujeitas a falhas de conduta, envolvidas na política, e, o mais importante, simpatizantes do Partido Democrata de Barack Obama e da família Clinton.