Não diga que eu não avisei

Recentemente, a timeline do meu Twitter chocou-se com o caso de um conhecido professor brasileiro, que tenta carreira nos Estados Unidos e foi denunciado por assediar mulheres, alunas suas, e sobretudo pelo tom agressivo utilizado. Não, não estou falando do Olavo de Carvalho. A figura referida está bem mais à esquerda e até poucos dias, antes de apagar os seus perfis nas redes sociais, costumava escrever textos polêmicos questionando o que acreditava ser um status quo de direita.

Não deixa de ser um caso irônico. E é o que acontece, e vai continuar acontecendo, enquanto quiserem conciliar vícios da esquerda tradicional com as reivindicações dessa já nem tão nova esquerda, baseadas em casos do cotidiano, incansavelmente debatidos por uns 2 dias nos fóruns de Internet, e pautadas por questões identitárias (de gênero, étnicas, etc.) Questões que um sindicalista velho, gordo e de cabelo seboso consideraria simples perfumaria.

O sindicalista velho, esquerdista tradicional, já sabe, mais pela experiência da idade do que pela leitura de Marx, que mesmo alguém à esquerda está sujeito a achar graça de um travesti, fazer piadinhas com o colega que parece homossexual e assobiar quando na presença de uma mulher atraente.

Não que a velha esquerda tivesse os pés no chão, mas projetava a sociedade ideal, igualitária e só com gente de bem para o futuro (sabe-se lá quando). Enquanto estivessem na sala de espera da revolução, na cabeça do esquerdista antigo, mesmo o proletário bem-intencionado precisaria ser guiado. Ele está sujeito a deslizes tão sérios quanto os do empregador, do opressor. O proletário nessa condição, contudo, não é um opressor; é um alienado.

O novo esquerdista acha que as cartas do bem e do mal já foram distribuídas. E fala isso, claro, do alto do pedestal de quem pode ditar as regras, onde já há uma hegemonia que condiciona a aceitação alheia, por mais que suas palavras pareçam uma generalização absurda. O novo esquerdista (em geral, diz-se “defensor de minorias” ou algo que o valha) pode ter suas limitações, mas ele é sempre bem-intencionado. Se comete deslizes, é porque seu adversário está usando critérios arbitrários, uma “falsa simetria”, na hora de julgá-lo. Ou porque os termos do debate ainda estão em processo de ressignificação. O direitista, não. Este só vai partir seu coração, vai agredir o Gregório Duvivier e entoar “discursos de ódio” numa calçada de alguma rua do Leblon ou de Higienópolis.

Quando acontecem casos como o do professor mencionado no parágrafo inicial, o mundo do novo esquerdista desaba. Como pode um defensor de minorias cometer tamanho direitismo?

Bem, eu sei o quanto “não diga que não avisei” soa chato, o quanto soa como discurso de gerações mais antigas que gostam de incomodar os jovens cheios de convicções. Mas se tem um ensinamento básico do conservadorismo — ou melhor: algo que o conservadorismo nos ensina a observar na vida, inclusive no caso do tal professor — é o que diz respeito à maneira de lidar com a fragilidade da vida, dos humanos e das relações entre eles. Ser conservador não é dizer que o passado remoto é bom e deve ser integralmente imitado. Sobretudo porque essa imitação seria impossível. Tudo muda e vai inevitavelmente mudar. Não raro, seremos surpreendidos por essas mudanças. Mas se for possível minimizá-las, nos prepararmos para elas e nos apegarmos aos bons modelos, que assim seja. Se não servir para termos uma visão de mundo prudente e estarmos cientes da efemeridade das coisas, no mínimo não seremos surpreendidos quando nosso ídolo da esquerda mostrar-se tão humano quanto um direitista qualquer.

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