O mafioso chantagista

Um dos principais artifícios do mafioso para aumentar sua rede de influências, talvez mais do que a coerção física direta, é a chantagem. Explorar os pequenos vícios daqueles que de alguma forma servem ao seu interesse: ameaçar de contar à esposa do pai de família viciado em jogo que ele perdeu metade do salário em apostas ou que ele mentiu quando disse que ficaria trabalhando até mais tarde, que na verdade ficou no bar bebendo com os amigos. Não que isso não seja errado: é, e muito. Mas é algo sobre o qual o sujeito precisa prestar contas a si mesmo, à própria consciência, a Deus, em última análise. O mafioso não está interessado em corrigir os erros desse cara, em colocá-lo no caminho certo, mas tão somente em usar o seu deslize para praticar um outro erro, provavelmente mais grave e de proporções muito maiores.

O mesmo acontece quando seu conhecido petista — “conhecido”, pois amigo não deve ser — faz postagens no Facebook cobrando uma postura com a que você costuma ter ao PT em relação ao PSDB, ao Aécio Neves ou a políticos genéricos em que você votou, se é que votou, para não eleger Dilma Rousseff. Ou pior ainda: tentando diminuir a corrupção do partido ao infligir culpa por pequenas corrupções do dia-a-dia. Ele não quer que todos sejam julgados, punidos e que se estabeleça um governo virtuoso e baseado em bons valores. Ele sabe que não existe paralelo entre a sua relação com o candidato em que votou e o endeusamento esquerdista de lideranças de caráter desviado. Tudo o que esse conhecido quer é que você deixe de incomodá-lo com a verdade sobre aquilo que ele defende sem a menor vergonha na cara.

Assim, se o petista não se sente um exagerado (um pilantra, na verdade) ao comparar quem baixa filmes da internet a um chefe de quadrilha, você não deve carregar culpa por compará-lo a um Don Corleone — mas não estranhe se ele ficar orgulhoso, como é de se esperar de uma cultura de idolatria a vilões.

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