Por que a ironia da esquerda (brasileira) é tão ruim.
A ironia é daquelas coisas sobre as quais pouco ou nada deveria se falar, sob pena de tirar-lhe a força e o significado. Por isso, e pela minha preguiça de escrever e publicar textos, pretendo ser tão breve quanto puder ser.
Acho que posso falar, sem me tornar suspeito em função de minha postura política, que o humor da esquerda é esforçado, mas não tem a mínima graça. Quando um representante brasileiro da esquerda tenta ser irônico, pior ainda. A ironia, o sarcasmo, o cinismo remetem a um vilão de filme de super-herói. Logo, combinam mais com a direita. Mas isso não é tudo.
A ironia pressupõe saber rir de si mesmo, da própria insignificância diante de algo maior e com um sentido que se lhe escapa. Ora, a esquerda, sobretudo a esquerda brasileira, dispõe do amparo de uma opinião pública, de uma visão de mundo em que a própria falta de sentido pode trazer benefícios num eventual debate (através do relativismo, por exemplo). Não precisa, assim, prestar contas a instâncias superiores. Até porque não acredita em tais instâncias; seu mundo é o material e, se este apresenta contradições, é exatamente para evidenciá-las que existe a esquerda. O esquerdista não quer saber da sua limitação para entender o absoluto, ele quer empurrar a sua visão de mundo — goela abaixo, se necessário. Não haveria motivos para fazer uso da ironia. Por que e quando o faz?
Recentemente, a partir do período eleitoral, os petistas fizeram uma incorporação irônica do termo “petralha”. O ato de votar na candidata petista, por exemplo, passou a ser denominado “petralhar” — no perfil de Facebook oficial do partido, inclusive. Ora, o apelido, dado originalmente por Reinaldo Azevedo (colunista que todos eles odeiam a priori), tem relação com o envolvimento e a condenação dos membros do PT, petistas históricos, com escândalos de corrupção. Logo, ao debocharem disso, fazem pouco caso de um desvio moral seríssimo. Mais: eles próprios cometem um desvio de mesma natureza.
A corrupção de fato faz parte da condição humana. Lançar mão da ironia ao abordá-la pode ser uma maneira de amenizar o peso de sua inevitabilidade e de prestar contas à própria consciência. No caso em questão, contudo, tem-se uma militância que faz uso da ironia para rebater o adversário, para jogar nas costas dele a própria culpa. Além da falha moral, portanto, se está diante de um covarde que se esconde numa opinião pública que lhe oferece abrigo; daí que um artifício tão óbvio quanto o da ironia à esquerda seguidamente passe despercebido, mesmo pelos seus interlocutores.
A verdadeira ironia é solitária, busca compreender o mundo, a vida, algo maior, ao mesmo tempo em que reconhece suas limitações. O esquerdista é irônico apenas quando dispõe de um mundo que já está dado, quando pode se utilizar desse recurso para compartilhar de uma “piada interna” entre os amigos, pisar nos adversários e corroborar suas convicções.
E se alguém me disser que o PT não representa a esquerda brasileira, conversamos, talvez, numa futura postagem.