Vértices Dolorosas

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Poderiam ter sido teus olhos verdes, ou tua risada tímida de canto de rosto, mas na verdade, o que me chamou atenção foi aquela caixinha de madeira ornamentada. Hoje já não sei se me apaixonei por ti e, consequentemente, pela pequena peça de madeira, ou se foi o contrário, se a obsessão pelo segredo que ela escondia foi o que fez eu me aproximar de ti, da tua pele, cheiro e cama.

Ela andava contigo pra todo canto. E ninguém além de mim parecia notar, ou queria notar, o fato de você nunca abri-la. Aquela caixinha de madeira ornamentada, com desenhos e papéis colados com teus dedos finos. Os mesmos dedos que me acariciavam a pele tinham o cuidado abissal de pintar cada flor e colar cada recorte colorido no seu devido lugar. Mas você nunca abria. Nunca me dizia o que tinha dentro. Era o segredo do qual eu estava excluída. E, aos poucos, você foi notando o quanto aquilo me deixava louca.

Louca porque eu via que teu cuidado com ela parecia superar o cuidado que tinhas por mim; que quando você abraçava ela contra o peito e fechava os olhos junto a um sorriso de satisfação, não era o mesmo abraço que acalentava meu corpo nas noites invernais. Minha vontade era destruir aquela caixa e saber, o que dentro dela, te fazia amar daquele jeito.

Eu não sei em que ponto a gente se perdeu por causa de um objeto, mas pra mim já era mais que isso. Era sobre você e eu, porque eu não queria mais aquele triângulo amoroso. Queria tua confiança, queria corações abertos e não caixinhas fechadas. Aquela maldita forma quadrada com vértices suaves me deixou insana ao ponto de gritar na tua cara e te empurrar contra os móveis, de chegar ao ponto baixo de expor tuas fraquezas e te ferir o coração, de não ligar pras tuas lágrimas e violentar tua alma da maneira mais sórdida.

De tanta raiva, te deixei na sala e de tanta raiva não dormi, vendo uma tempestade inundar a minha janela até sumir por entre os raios de sol que nasciam 6h da manhã. E, depois de nos destruirmos, você foi embora. Contou até dez antes de sair, respirou fundo e depositou a tua única preocupação na estante do apartamento. Colocou bem no meio, na ultima prateleira, onde meus olhos batem toda vez que eu preciso pegar algum disco pra afundar mais uma garrafa de conhaque no organismo.

E a única coisa que ficou intacta, foi aquela pequena caixinha de madeira ornamentada. Onde dentro consta a resposta da tua partida e da minha insanidade desinibida; onde consta a última peça do teu quebra cabeça; a bússola que indica onde te encontrar; onde não consta simplesmente nada, até o dia em que eu resolver abrir.