Mako Mori (Pacific Rim)

Tradução: Parem de perguntar “Isso é feminista?”

Esse texto é uma tradução livre de Stop Asking ‘Is This Feminist?’” escrito por Lindsay Ellis (@ thelindsayellis) para o site The Mary Sue, publicado em 12/05/2015.

Eu não lembro exatamente quando a pergunta “Isso é feminista?” tornou-se para mim o equivalente a um corte de papel. Eu recebia perguntas como, “Poderia me dar exemplos de personagens feministas?” ou “Esse filme é feminista?” e elas sempre me faziam virar os olhos porque eu não sabia nem como começar a respondê-las — a qual corrente teórica feminista você está se referindo, hipotético questionador? Você sabe que existem muitas correntes variadas, não sabe? Sabe que nós não recebemos um panfleto mensal com uma conveniente lista destacada descrevendo as tendências atuais de debates feministas? Além do mais, como poderíamos separar e catalogar todos os aspectos de uma peça da mídia e com confiança afirmar “Sim, todos os aspectos dessa coisa se alinham com cada faceta do tipo de feminismo que eu me atribuo.” “Isso é feminista?” é uma pergunta que funciona como um atalho e não há maneira que eu possa responder isso honestamente.

Mas durante a época que Círculo de Fogo (Pacific Rim) foi lançado, finalmente caiu a ficha — “Isso é feminista?” não era sobre aplicar as lentes do feminismo teórico sobre os estudos da mídia de maneira acessível, as pessoas só queriam se sentir bem gostando de coisas não problemáticas. O que já é problemático por si só porque se desvia do objetivo da crítica de mídia; não deveria ser sobre fazer você se sentir bem por gostar da mídia “certa”. É sobre traçar padrões no cinema e na linguagem cinematográfica e aplica-las ao seu contexto sociológico e artístico. Ganhar um tapinha nas costas porque sua série/filme/anime favorito não é problemático nunca fez parte do acordo.

Eu chuto que a maioria das pessoas não pensa muito sobre a origem da crítica feminista da mídia, independente do quanto alguém pode se engajar com ela (ou contra ela) diariamente. Além das fanzines, a maioria da teoria feminista sobre mídia existiu dentro do meio acadêmico, e a maioria do discurso a respeito de teoria cinematográfica e da crítica ocorria dentro de um contexto profissional. E então chegou a internet.

A crítica de mídia feminista na internet é influenciada pelo meio acadêmico, mas está longe de depender dele. E por mais que eu queira comemorar e saudar o poder do povo por tornar o feminismo uma pauta popular novamente, eu não tenho certeza se a influência da internet na crítica de mídia feminista é uma boa coisa.

A maioria das pessoas, por mal ou bem, aprendem sobre teoria feminista por osmose. Dado o fato de que temos uma estrutura teórica que é comumente mal utilizada ou incompreendida por aqueles que se apropriam dela (sim, estou olhando pra você, “Male Gaze”), a discussão sobre como o feminismo se aplica na mídia que consumimos não só ficou mais diluída, mas também muito mais controversa. Moya Luckett, historiadora de mídia e professora na Escola Gallatin da NYU, me falou: “Parte do problema com a teoria feminista, e com o nível de rigor e de sofisticação que ela com frequência envolve, muitas vezes significava uma relação problemática com o contexto do mundo real. O problema, penso eu, é que grande parte desse trabalho não é compreendido corretamente, inclusive pelos próprios estudiosos.”

Crítica feminista, ou qualquer crítica da mídia, é cada vez mais percebida como uma forma de assassinato de caráter. “Se você atacar o meu precioso Homem de Aço, então você está me atacando.” E essa atitude não está limitada somente para os reacionários que desejam matar a teoria crítica — o lado de quem é a favor da justiça social também parece contente em classificar pessoas que consomem determinada mídia como alguém inferior — , como se existisse uma boa e má mídia, e os consumidores da mídia ruim são pessoas ruins. E o que diabos isso traz de positivo?

E enquanto isso as pessoas parecem ter esquecido que a teoria feminista sempre foi fluída, e que sempre está mudando. Ela não nasceu do ventre do planeta Terra, totalmente formada; é um trabalho em progresso, sempre foi e sempre será. Lisa Wase, professora de sociologia e principal autora do Sociological Images, diz: “Nós não vamos controlar a mensagem sobre o que é o feminismo, e nós não queremos fazer isso. Feminismo sempre foi um diálogo, sempre foi controverso, e precisamos manter em mente de que precisamos de um feminismo plural, e nós precisamos manter o diálogo, então a ideia de silenciar algumas pessoas é o jeito errado de fazer isso.”

Conforme a conversa sobre crítica da mídia feminista se torna cada vez mais controversa, eu tenho visto acadêmicos de alto nível descartando opiniões divergentes com base na falta de estudo relevante. A emotividade do discurso crescente na crítica da mídia tem levado a um aumento das táticas ad hominem. Em vez de ouvir “eu não concordo com isso”, agora é mais provável que você ouça algo como “você não é feminista” ou “você é uma má pessoa”. É um jeito fácil de descartar alguém de uma conversa, apresentando uma falsa dicotomia intransigente, mas você não pode dizer que isso não é meio efetivo de silenciar um discurso.

“Nós estamos bem mais interessados em estar certos do que aprender alguma coisa” afirma Wade. “Olhar muitos pontos de vistas diferentes ao mesmo é realmente ameaçador para nós, por que sugere que não há uma resposta definitiva.”

Mídia, especialmente ficção, pretende envolver você num nível emocional, e o investimento pessoal que muitos tem nessas obras é a porta de entrada para o mundo da teoria feminista para várias pessoas. Se as pessoas se envolvem emocionalmente com alguma coisa, elas querem saber se essa coisa tem um significado mais amplo do que simplesmente uma distração gerada por megacorporações. As pessoas querem acreditar que seu video game ou filme favorito ou o que quer que seja que tenha um lugar na grande narrativa que é o progresso social. Não somente “eu gosto dessa coisa”, mas “eu gosto dessa coisa e aqui está como ela está ajudando a melhorar o panorama da mídia.”

O problema aqui é o desejo inevitável de moldar essa narrativa, e eu vejo uma tendência crescente de pessoas tentando moldar a teoria feminista para justificar a mídia que eles gostam, e não o contrário.

Gosto pessoal e leituras críticas podem e devem existir de forma mutuamente excludente entre si. Eu entendo o desejo de ser uma pessoa melhor, e o desejo de pensar que você gosta do que você gosta pelas razões certas, mas esse não é o ponto. Esse nunca foi o ponto.

É difícil divorciar seus sentimentos pessoais da mídia que você ama. Eu entendo isso, especialmente quando foram os sentimentos pessoais que te estimularam a fazer crítica da mídia pra início de conversa. E talvez esse seja o componente vital e necessário para o futuro da crítica de mídia. “As vezes você precisa convidar alguém para o feminismo de uma maneira que não seja agressiva” diz Wade. “Talvez não seja tão radical como algumas pessoas desejam, mas é um começo.”

Talvez você seja emotiva sobre suas leituras da mídia, porque você quer ver progresso numa certa direção, e tudo bem aí. Mas quando teoria crítica se torna agressiva e usada para categorizar e silenciar aqueles que gostam de uma obra midiática, classificadas como “pessoas más gostam disso” e “pessoas boas gostam daquilo”, como isso avança a discussão da obra midiática em questão? Você mandou alguém calar a boca por ter dito que era ela uma pessoa ruim. ÓTIMO. O que isso tem haver com o debate? Ah, é. Porra nenhuma.

Não pergunte “Isso é feminista?” como forma de conseguir permissão para gostar de alguma coisa. Mídia é feita para criar uma resposta emocional. Você não é uma má pessoa por ter uma resposta emocional para uma obra problemática; Você não está sendo atacada se alguém analisar as políticas raciais do seu filme favorito. Crítica da mídia não é sobre você.

Nada está livre de críticas. Você não ganha uma estrelinha dourada por gostar das coisas “certas”, e pelo amor de deus parem de tentar classificar seu envolvimento emocional com alguma coisa baseado em ser ou não feminista o suficiente. Vá, e goste do que você gostar.