Kirsten Pauli- flickr

Carta sobre a dor ou reflexões sobre o suicídio

Não sei quanto tempo faz que eu não escrevo aqui. 
Acho que é porque há poucos meses mudei de país, ultrapassando um oceano. Embarquei esperando uma nova vida. Quando a gente passa por um momento difícil (eufemismo, quem tem fibromialgia conhece bem essa palavra) a gente espera que depois dessa dificuldade tudo vai se acalmar e que vamos passar por um longo momento de calmaria. Mas então chega a vida nova e, como qualquer vida que se preza, apresenta seus novos obstáculos.

Acho obstáculo uma palavra tão clichê. Mas não tem outra para traduzir isso. Eu fiquei arrasada porque acreditei que depois da tempestade viria a calmaria, ou, mais que isso, o paraíso. Mas não, veio um ciclone. E nos momentos em que conseguia respirar eu pensava, sim, a vida é igual a um video-game, passou de fase a próxima terá um chefão ainda mais difícil de matar. O tão esperado paraíso após a calmaria nunca chega. Se a vontade de viver está nas nossas asas, eu perdi penas demais para prosseguir. E o que arrancou as penas sem dó foi a dor.

A dor é uma palavra tão abstrata e tão ampla quanto a palavra fé. Uma pessoa descrente ainda pode ter fé em algo e uma pessoa que sente dor pode não ter problemas para trabalhar ou ir à escola. É que a dor se mede em graus. Hoje estou melhor (graças a um ótimo acupunturista), mas a dor que senti nessa semana me deu vontade não de morrer (como normalmente ocorre), mas de me matar. Parece a mesma coisa, mas há um abismo entre esses dois sentimentos. A vontade de morrer é passiva; deitamos na cama, nos cobrimos, nos enrolamos em concha e pedimos que nos tirem a vida. A vontade de se matar é ativa; pesquisamos métodos no Google, imaginamos qual seria a faca mais afiada para cortar nosso pescoço. E a razão disso é a dor.

E agora me veio à mente o conceito de dignidade humana, que nunca soube definir bem. Mas acredito que alguém que sente dor a ponto de querer cortar com uma faca seu pescoço está um pouco longe dessa definição. E por isso a fibromialgia é tão grave. Mas é uma doença invisível, assim como a depressão consequente dela. Eu fui ao médico no dia seguinte à minha primeira vontade de me matar. Ela me colocou na lista de espera para um psiquiatra para daqui a dois meses. Mas, para quem sente essa vontade, dois meses é uma eternidade.

Fico imaginando minha irmã lendo esse texto e querendo pegar o avião para vir aqui me salvar. Mas nada além de uma injeção de ópio pode salvar alguém com dor extrema. Ou umas seções de acupuntura. Para os familiares é paralisante ver seu ente querido assim. Por esse motivo eu me calo. Converso menos e vou juntando os remédios. Só para se por acaso a dor resolva voltar. Mas mesmo que a dor não volte, a experiência do querer se matar é tão intensa que parece que quando melhoramos tivemos a oportunidade de começar de novo. Uma nova chance de viver. Aproveitemo-na.