Acorde e sinta o cheiro da Hallewa

Hoje de manhã eu estava lavando uma lata de tahine que usei pra fazer homus. E aí, de repente, fiquei morrendo de vontade de comer hallewa.

Para quem não sabe (e ninguém tem obrigação de saber), eu aprendi o que era hallewa aos seis anos de idade. Aprendi o que era homus quando comecei a frequentar restaurantes árabes, ou seja, há uns trinta anos. E tahine há uns meses atrás, quando resolvi fazer homus em casa. Na mesma ocasião, aliás, descobri que o tahine é um dos ingredientes básicos para a hallewa.

Então fui lá e comprei uma lata de tahine.

Para ilustrar melhor essa cadeia culinária que veio do Oriente Médio:

E isso é o tahine, uma pasta de gergelim usada para fazer o homus e a hallewa
Isso é o homus, aquele aperitivo gostoso servido em restaurantes árabes.
Em isso é a hallewa, um doce tão maravilhoso que devia ser proibido

E depois de tudo isso, o leitor deve estar pensando que eu vou escrever sobre culinária árabe.

Só que não.

Voltando pra pia da minha cozinha: na verdade, o cheiro do tahine me enviou numa viagem sem escalas à minha infância. Férias em Piraju com minha tia favorita, a Maria de Lourdes, casada com o Tio Jorge Assaf. Tio Jorge não apenas me trazia hallewa, como também me levava para passear de Kombi - o que eu achava um privilégio dos deuses.

E agora você deve estar pensando que eu vou escrever uma encantadora crônica sobre a minha infância.

Só que não.

O que eu quero, na verdade, é escrever sobre a morte.

Quero contar que, na hora em que abri aquela lata, percebi, com uma pontada no coração, que todas aquelas pessoas estão mortas. Minha tia. Meu tio. A Manta, irmã dele; a Dona Rosa, mãe dos dois - uma velhinha síria de olhos muito azuis. O Pile, sobrinho dele. Só sobrou eu.

E onde está toda aquela gente?

Nas palavras do poeta, que se expressou melhor que eu:

Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo

Profundamente.

Envelhecer não é nenhuma maravilha. O sujeito que inventou a expressão “melhor idade” devia ser enforcado, na minha opinião — antes de ficar velho. Aí todo mundo fala dos problemas de saúde, da aposentadoria miserável, da desconsideração que a sociedade tem com a pessoa idosa etc. Tá. Tudo isso é muito chato. Mas o pior mesmo é a sensação de que o mundo vai ficando cada vez mais pobre, mais escuro, mais triste, à medida em que você perde as pessoas que ama.

O jovem não acredita em morte. Pode morrer o amigo dele, ali do lado, que ainda assim ele não acredita. Não só se acha imortal, como acha que as pessoas à sua volta são imortais, também. A morte é um conceito abstrato, para o jovem. Os jovens são ateus de morte.

Mas aí o tempo passa. E a morte começa a fazer “participações especiais” na sua história. Participações cada vez mais frequentes, diga-se de passagem. Acaba entrando no elenco. Um dia é o tio-avô, depois aquele conhecido que tinha um monte de grana (a morte tem o desagradável hábito de não olhar conta bancária), depois o amigão da família. Começa a virar rotina: toda vez que você visita a sua mãe, ela avisa, compungida, que mais alguém faleceu. Aquele professor bacana de que você gostava no Ensino Médio? Morreu. Câncer, coitado, não sabia? O gerente do banco? Caiu duro em pleno dia 10, no meio da agência. A mãe da sua melhor amiga? Lá se vai você pro velório segurar a mão da moça, debulhada em lágrimas. E mesmo não sendo tão próxima da falecida, você fica aturdida. Nunca pensou que uma senhora tão bacana, que você conhecia desde menina, fosse cometer tamanha indelicadeza. Morrer, poxa. Que mancada da parte dela.

Pois aí é que está a chave da história: as pessoas que fazem parte da nossa infância e adolescência, quando morrem, nos deixam sem chão. Até os chatos de galocha, como o vizinho que reclamava sempre do barulho das crianças (ou seja, você e seus irmãos), quando morrem levam consigo um pedaço do seu passado.

Você inclusive começa a duvidar da existência do seu passado.

Os avôs morrem. Sinto muito, não adianta fingir: não são uns velhinhos quaisquer que já estavam velhinhos mesmo. São velhinhos que fizeram parte da sua vida.

Amigos também morrem. Gente da sua idade, da sua geração, que estudou com você, foi colega de trabalho, de militância, enfim. Eu ainda estou na fase em que posso dizer: “Coitado… Tão moço ainda…” Moço relativo, né, porque os falecidos, como eu, já tinham acumulado seis décadas muito bem vividas. Mas ainda posso fingir que eles deram azar, foi um lamentável acidente, o médico deu bobeira etc etc.

E aí vem AQUELA MORTE que separa tudo na sua vida: o antes e o depois. Aquela morte que muda tudo, que atravessa o seu roteiro. O quarto vazio, os livros que sobraram, as roupas na gaveta. A voz que se calou; o som de um riso claro que ficou só na memória; as perguntas que você nunca fez, e agora jamais serão respondidas. A ausência que muda tudo: torna o ar mais escuro, os aniversários menos alegres, e finalmente faz a ficha cair. Você, um dia, também vai morrer.

E nem falta tanto tempo assim.

E o mundo continua o mesmo, e as pessoas cada vez mais estúpidas, sem noção do valor da vida - que só é dado pela inevitabilidade da morte. E o povo se machucando, se odiando, desejando a morte uns dos outros pelas redes sociais… As pessoas vivendo sem aprender nada, sempre imaturas, rancorosas, pequenas, sem grandeza. As pessoas valorizando aparência, dinheiro, carro novo. E quando sentem angústia, saem correndo pro vendedor de milagres mais próximo: o pastor picareta, o traficante de drogas, o guru de auto-ajuda…

Não sou uma pessoa infeliz. Se morresse amanhã, teria vivido uma vida bem bacana, cheia de momentos intensos. Nem todos felizes, mas achar que vida boa é aquela que só é feita de felicidade é coisa de gente burrinha.

Também já fiz muita burrice. As perguntas, as conversas, os encontros que eu queria ter tido com esses mortos — tudo isso ficou definitivamente para trás. Perdi muito bonde nessa vida. Deixei pra semana que vem, pro mês que vem, pra uma outra vida quem sabe, aquela conversa, aquele abraço, aquele almoço. Idiotamente achando que o tempo era todo meu: infinito, recurso renovável. Viajante do tempo, nem olhava pela janelinha. E o único consolo que me resta é ter tido tanta gente, na minha vida, que deixou saudades. Já imaginou se eu não tivesse?

Semana que vem, sem falta, eu vou comer hallewa.