Débora, eu até entendo a sua impaciência com gente que tenta : 1. Dar um rótulo para você baseado apenas na sua data de nascimento; 2. Obrigá-la a manter relações com gente horrorosa só porque esta compartilha um pedacinho do nosso DNA. OK. Sem problema.
Entretanto, tenho notado cada vez em mais gente hoje em dia — e gente de uma faixa geracional bem mais ampla do que essa que você identifica no seu texto — algumas coisas que me preocupam. Uma delas é confundir diferença com desacordo.
Vamos supor que o seu Tio Francis até tenha coisas interessantes para te dizer, uma experiência de vida legal para te passar, DEPOIS que você explicar para ele, de forma firme e gentil, que não quer ouvir os palpites dele sobre sua vida profissional e pessoal. Já pensou nessa hipótese?
É mais fácil, entretanto, sumir da frente do Tio Francis. Ou até da família inteira. Na minha experiência — desculpe mencionar- conviver com famílias neuróticas , ou seja, 100% delas, é importante. Porque é de lá que você veio. É lá que você se descobre, entende suas próprias neuras. Coloque algumas barreiras, alguns limites, e conviva. Cara a cara. No almoço de domingo de vez em quando, inclusive. A menos que a sua família seja claramente psicótica, você vai tirar muita coisa boa disso.
Em outras palavras: de repente, o Tio Francis não é tão diferente assim de você.
O que eu noto no seu texto é uma idéia de que, quando as pessoas não se conformam exatamente com a nossa própria imagem, nossos gostos, nossas diferenças, nossos ideais, o melhor é desconsiderar, descartar, dispensar esses “corpos estranhos”. E aí qual é o problema com isso? você dirá. O problema é que a gente cresce, e se constrói, no convívio com as diferenças, com o diverso, daquilo que não é arroz-com-feijão com que estamos acostumados. É ouvindo idéias diferentes, aceitando modos de vida que não são exatamente os seus. Ninguém precisa ficar com alguém que o machuca, é verdade. Nem deve. Mas por que assumir que as pessoas que são diferentes de você vão machucá-la? Não é essa a base de toda intolerância que vemos por aí no nosso país, no mundo etc?
Só alguns questionamentos para você pensar.