O Diabo

O diabo já acordou, e está olhando pela janela.

O dia do diabo está cinza e feio.

Mas qualquer dia é feio, visto do seu apartamento.

São quarenta metros quadrados

que ele comprou inda na planta

e vai pagar pelo resto da Eternidade.

O diabo está bem velho, mas, em vez de estar mais sábio,

Ficou meio lerdo.

Qualquer corretor passa a perna nele. Tadinho.

Tem artrite e depressão, segundo o médico.

Não que ele acredite em médicos.

Afinal, eles hoje em dia

também não acreditam no diabo.

Depressão é um conceito relativo; o diabo está aposentado, e como vocês sabem,

a incidência de depressão em aposentados é muito alta.

O diabo tomou uns remédios aí, mas não adiantaram.

Aliás! “Aposentado” não é bem a palavra.

Houve um downsizing, uma readequação, e ele dançou, ganhou uma pensãozinha do INSS e um par de chinelos.

Mas a verdade nua e crua é: o diabo se tornou desnecessário.

A humanidade faz o trabalho dele, com muito mais eficiência.

Ninguém precisa mais do cara.

Fechado em casa, o diabo se viciou em “reality shows”;

Passa as tardes vendo na TV aquela gente bela e bronzeada

Que briga, que chora, faz sexo, conversa bobagens, fala mal do marido…

O diabo lembra, com saudades, dos velhos dias em que comprava almas.

Aqui, com certeza, não há nada a comprar.

Às onze horas, nosso diabo desliga a TV e vai dormir.

E no sonho até sorri…

Todas as noites, o diabo sonha com o Inferno.

Vou contar para vocês uma história muito triste: o Diabo já tentou se matar.

Saltou da varanda-grill do seu décimo-quinto andar.

No meio do caminho, lembrou que era imortal; não adiantava pular.

Executou uma vira-volta em pleno ar, ascendeu — e voltou pra sua salinha e sua televisão!

Tinha uma garota de quatro anos, que brincava no playground, e que viu o salto-quase-mortal do Diabo.

Aí ela apontou o dedinho e gritou: “Olha, mãe, um Pokémon!”