Image by Pexels

A fragilidade de ser jovem.

E porque o bullying tem um efeito tão devastator.

Eu comecei a ver 13 Reasons Why sabendo que essa série ia servir de gatilho para sentimentos que eu tento combater desde que iniciei uma guerra conta a minha auto-estima baixíssima. Vi muita gente postando no Facebook sobre a série e relatando o bullying no Ensino Médio que eles mesmos sofreram. Fiquei triste por ver que esses episódios são quase uma máxima na vida da maioria dos adolescentes.

Sair ileso dessa fase é quase impossível. Sobreviver as equações de geometria não são nada perto de lidar com a confusão que é a vida entre os 12 e os 18 anos.

Recentemente eu estava conversando com uma tia sobre como foi difícil entender quem eu era, e como ser gay tinha me causado problemas e sofrimentos desde a infância. Supresa, principalmente com esse texto que eu tinha publicado, ela me pediu que eu contasse um pouco sobre isso. Relatei uma passagem de quando eu tinha 7 ou 8 anos, que estava fresca na memória porque eu havia contato numa palestra no trabalho a pouco.

Uma das coisas que eu mais gostava na minha infância era nadar. Portanto, quando eu comecei a fazer natação eu me sentia a criança mais feliz do mundo. Eu já tinha meus problemas com meu corpo, pois já naquela época eu tinha vergonha em tomar banho pelado no vestiário. Enquanto todos os meninos andavam desinibidos, eu tomava banho de sunga e corria para me trocar. Sempre sendo o primeiro a colocar a roupa ou o último a sair do chuveiro, esperando que todos acabassem. Mas meninos, vocês sabem, adoram brincadeiras.

Eles me chamavam de nomes e riam. 
Eles eram todos mais velhos que eu. 
Eles me pregavam peças. 
Eles eram mais másculos que eu. 
Eles me batiam com suas toalhas. 
Eles eram populares. 
Eles me empurravam no chuveiro com a água fervendo. 
Eles eram meus colegas.

Eu passei o restante dos meus anos escolares sendo agredido da mesma forma. Os meninos pareciam não saber lidar com o fato de eu não ser como eles. Eu não gostava de esportes, eu não assistia os filmes que eles gostavam, eu não andava nos grupos que eles frequentavam, eu era estudioso e lia livros. Eu era o boiola, o viadinho.

No fim, eu nunca vou conseguir descordar deles, eu era gay mesmo.

O que ninguém vê é que descobrir quem você é no meio de um ambiente tão hostil e violento causa dores e deixa cicatrizes pra uma vida toda. Entender o mundo do qual você faz parte e amar o corpo que você tem parece irreal. Quantos de nós não passamos a vida toda tentando nos encaixar, fazer parte, e perdemos tempo tentando nos conhecer e nos amando?

Isso não vale só para gays, qualquer desencaixe que você tenha dentro de um padrão que alguém diz que é o certo te coloca numa posição solitária e triste.

Os meninos que me agrediram estão por aí, e eu encontro com eles diariamente. Eles são colegas de trabalho, amigos de amigos, namorados de amigas, tios, primos, são pessoas de bem que não me fizeram bem.

Semanas atrás eu encontrei no trem um garoto que estudou comigo no Ensino Médio. Ele nunca me fez nada diretamente, mas ele é a personificação do que eu sempre odiei e combati. O galante garoto engraçado e popular da turma, que escancara preconceitos mascarados de piadas, e de uma imaturidade que causa ânsia. Quando vi que estávamos no mesmo vagão, ele sentado de costas para mim, fiquei paralisado. Por instantes eu voltei a ser o garoto de 8 anos com vergões vermelhos pelo corpo. Foi ai que eu entendi.

Não importa quanto a gente cresce, lute, evolua, amadureça, enriqueça, viva, ame ou ganhe argumentos. Fragilidade é o que nos torna ser humanos.

Eu reagi como eu sempre fiz, ignorando. Junto desse homem de quase 24 anos com 1,84m e 88 quilos, tem uma criança que se olha no espelho e não gosta do que vê, que exercita diariamente sua auto-estima.

A Hannah teve 13 motivos para tirar a própria vida.
Não seja o motivo de alguém.

Mais que isso, faça com que seu amor próprio seja maior do que qualquer motivo para que alguém te faça sentir mal.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.