07/01/2013

Era segunda-feira e eu estava atrasado pro trabalho. Tinha decidido passar domingo à noite em Santos, na casa dos meus pais, e subir para São Paulo na manhã seguinte. Sabe-se lá porquê.

Às vezes é pra ficar conversando com a minha mãe, às vezes pra jantar pizza com meu pai, às vezes pra ver algum filme com minha irmã. Às vezes é só preguiça mesmo. Normalmente, é só aquela vontade de passar mais umas horas com minha família.

Acordei, tomei banho, me arrumei, botei minha camisa do Jurassic Park, chamei o táxi para me levar até a rodoviária, depois ônibus, pega metrô, faz três baldeações, espera a CPTM, pra chegar no Morumbi. Eu trabalhava numa agência de publicidade, na época. Antes de sair de casa, acordei minha mãe pra dar tchau. Normalmente ela abre os olhos assustada e, ainda deitada, me manda um beijo na porta do quarto. Meu pai descruza os dedos por sobre a barriga e me dá tchau. Naquela segunda, ela levantou, me pediu um abraço. Eu dei. “Me avisa quando chegar na rodoviária? E no metrô? E na agência?”. Sim, mãe. Sempre aviso (menos quando eu esqueço).

Liguei pra ela uns oito minutos depois. Eu não lembro a rua. Nem a rua com a qual ela cruzava. Mas eu não esqueço o susto. Tatuei na pele. Long live the car-crash hearts.

O sol tava à pino, apesar de ser lá pras 07h da manhã. Santos tem isso de acordar ensolarada, quente, e enfeiar durante a tarde. O céu nasce limpo, sem nuvens, e fica cinzento, rabugento, logo depois do almoço. O sol batia na minha cara, até que não batia mais. Uma árvore na calçada protegia a visão, até que não protegia mais. Um carro vinha no cruzamento. Não deu pra desviar.

O taxista não tava correndo, eu juro de pé junto. 60km/h, numa rua onde era permitido. O outro carro parecia estar mais rápido. Não respeitou o sinal de PARE, veio com tudo. E a gente entrou nele.

No cruzamento em X, o táxi em que eu estava virou à esquerda e o carro que vinha da direita, seguiu a rua em que nós deveríamos continuar à frente. Atingimos bem no meio dele. O barulho é ensurdecedor, parece o mundo acabando. Mal deu tempo de proteger a cara, fechar os olhos, cerrar os dentes. Língua no céu da boca, pra não morder.

Fomos de encontro a uma lixeira dessas de metal, fincada na calçada. Ela não aguentou, abriu espaço. Subimos a calçada, descemos a calçada, batemos em outros dois carros estacionados. Tudo parou. Desviamos do muro de uma casa de esquina e acabamos numa vaga na rua.

Quando eu abri os olhos, tinha sangue no vidro, no painel, no chão, nas minhas mãos. O sangue não era meu. Olhei para o lado e o motorista olhava pra mim. Um olho fechado, outro aberto. O sangue era dele. E jorrava do topo da cabeça sem cabelo, do nariz, dos olhos, da boca. Jorrava. Ele piscou, sem entender o que tinha acontecido e fez que ia falar algo. Eu mandei ele não dormir e saí correndo do carro, gritando, pedindo ajuda, socorro, alguém.

Virei a esquina, à esquerda, e dei de cara com o outro carro, totalmente irreconhecível. Era uma pilha de metal com rodas, na real. A motorista estava tentando sair pela porta, mas quando conseguiu, antes de eu ter tempo de chegar nela, caiu no chão, vomitou, estava sangrando também. Ela não sentia as pernas. A senhora no banco de trás estava desacordada.

Peguei meu celular e liguei pro 193. Contei o que houve. Não conseguia ler a placa da rua, tava tudo embaçado.

Ouvi uma voz da casa ao meu lado e uma moça, com o telefone sem fio na mão, dizia que já havia chamado o resgate. Me pedia calma. Eu só consegui perguntar se eu tava bem.

“Tá sim, tá inteiro”

“Tô mesmo? Não tem machucado?”

“Nada, tá inteiro!”

Voltei pro táxi. O taxista tentava sair do carro e eu o impedi. Fica aí, é melhor, não se mexe. E não dorme.

Respirei fundo. Meu óculos tava no chão do carro, por isso não conseguia ler nada. Voltei pra frente da casa e a motorista e a senhora do banco de trás estavam mais calmas, sentadas. Não passavam mais mal, estavam acordadas.

Peguei meu celular de novo, liguei pra minha mãe. “Tá sentada?”. Ela começou a chorar. Eu pedi pra moça da casa deixar eu lavar minhas mãos na mangueira do quintal dela.

Eu não sei quanto tempo as ambulâncias demoraram pra chegar. É o pedaço que fugiu da memória. Minha mãe e minha irmã chegaram, de táxi, logo depois do socorro. No carro, vinha com elas também o chefe do motorista. Elas choravam, me abraçaram. Tá tudo bem. Tô inteiro. A moça e a senhora já haviam sido levadas ao hospital. Na ambulância, minha mãe queria ver o motorista do táxi. Ele chorou ao vê-la. Não dá pra confundir, vendo nós dois lado a lado. Sou filho dela, ela é minha mãe. Cuspido e escarrado, com muito carinho.

Ele pediu desculpas, ela agradeceu. Eu agradeci.

Os dois carros deram perda total. Caixa de câmbio, coisa e tal. A moça que dirigia ficou meses em fisioterapia. Precisou reaprender a andar. A mãe dela, a senhora que estava no banco de trás, tinha acabado de sair do hospital. Havia operado de um aneurisma. Não ficou tão mal assim, logo se recuperou. O motorista do táxi teve traumatismo craniano, quebrou nariz, uns dentes, mas continua de táxi.

O peito doía do cinto de segurança. Eu fechava os olhos e via o carro chegando. Passei uns meses em tratamento pra estresse pós-traumático, sem dormir direito, aquela coisa toda.

Voltei pra casa, liguei pro trabalho e avisei que não iria.

Queria passar mais umas horas com minha família.

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