O Pior Voo da Minha Vida

Eu não acredito em Deus, mas como todo clichê de ateu, dei aquela rezada quando ouvi a aeromoça duas fileiras atrás de mim fazendo o mesmo.

Veja bem, eu tenho medo de avião. Não aquele medo irracional de que tudo vai dar errado e a culpa será minha dele cair. Mas sim aquele medo de saber que estamos todos dentro de um pedaço de lata voando a 1000km/h a 10km de altura. Se cair, fodeu.

E eu entendo as chances mínimas e probabilidade ínfima de algo dar errado nesse nível. Um avião nunca cai por um só motivo. É sempre uma soma de várias paradas erradas que, juntas, não deram certo. Negativo com negativo não deu positivo. A matemática, às vezes, não faz muito sentido na prática. Ainda mais quando a prática é um pedaço de lata voando com gente dentro.

Mas eu voo. Só paro quando cair de vez. O medo não me congela e não me deixa nervoso na prévia. Só durante. Principalmente se as pessoas mais acostumadas a voar estão tanto com o cu na mão quanto eu. A Lô me dá a mão sempre, mesmo sabendo que eu vou apertar até deixar roxa. Desculpa, não é consciente. Nem a reza, naquele voo São Paulo ~ Nova York foi.

A gente já tinha passado o Panamá quando a turbulência começou. “Mas turbulência não derruba avião, Gabriel!”. OLHAQUI TU SE PERGUNTA SE FANTASMA É REAL QUANDO OUVE BARULHO SOZINHO EM CASA À NOITE? Eu, não. Ou me levanto da cama e vou ver o que era ou viro pro lado e abraço a morte. Leva se for a hora…

A gente tava sobre o Atlântico e ainda faltavam umas horas pra pousar em Newark, mas a turbulência, antes tímida, tava em polvorosa agora. E da-lhe força no braço da poltrona. E na mão da Lô. As aeromoças vinham com o jantar depois que o cheiro de queimado deu uma palpitada no meu coração. Era só o forno aquecendo, é normal. Não adianta, o pior cenário passa pela mente.

E uma delas perdeu o equilíbrio em um dos solavancos. E então uma segunda deixou cair comida no chão depois de outro. Elas se entreolharam e voltaram, quase que correndo, pra cozinha do avião. Tinha coisa errada aí. Três minutos depois, o piloto anuncia. Vão cancelar o jantar. “Mil desculpas, pessoal”. Fodeu? Não sei.

Depois de quase seis horas de mini-queda, mini-ataque cardíaco, o avião vira à direita. Muito. E continua. Eu nem precisava do mapa pra saber: Nova York não fica pra lá. “É a direção da Europa, moço. Eu tenho que chegar em Tóquio, porra!” Eu só pensei isso tudo, não dei showzinho no avião, ok? Mas de nada adiantou.

Foi quando a reza da aeromoça começou. Baixinha, em inglês, pra não causar. Pânico. Pra não causar pânico. Eu já tava nele há uns minutos, então não mudou muita coisa. Me controlava pra não hiperventilar e ter um ataque de ansiedade. “Eu vou chegar em Tóquio e vai ser show”, eu pensava. “Cristalize seus pensamentos que as coisas acontecem”, me lembrava minha mãe. Eu o faço. O moleque chato da fileira de trás vomitou duas vezes. A irmã dele, uns anos mais nova, tava SUAVE. Olhei o mapa e fiz de tudo pra imaginar o cenário lá fora. A melhor opção era pousar em Boston, já que tivemos que desviar sabe-se lá do que ou porquê.

Dito e feito. “Senhores passageiros, devido ao mal tempo, precisamos fazer uma curva à direita para desviarmos de uma grande área de baixa pressão atmosférica (jargão pra TEMPESTADE, viu?). No entanto, acabamos gastando mais combustível do que o esperado e vamos precisar pousar em Boston para reabastecer antes de seguir viagem a Nova York. Pedimos desculpas por qualquer inconveniente que isso possa causar”. Melhor do que cair e morrer, vai.

Depois de duas horas presos no avião em Boston, com a chuva caindo lá fora e sem comunicação com o mundo exterior, a gente decolou em direção a Newark. Na saída do avião, a aeromoça, ainda com o aeroterço na mão, me entregou um aerocartão postal de uma aeronave antiga num aeroporto antigo. “Um souvenir de desculpas pelo voo atrapalhado”. Eu guardei pro meu pai. Atrás de mim, um rapaz recusou educadamente a lembrança. “Eu também quero esquecer esse voo…”, disse a aeromoça.

Já que pousamos horas depois do esperado, tive que ligar pra minha mãe. Normalmente, eu mando mensagem ou vídeo-conferência. Não tinha wi-fi naquela parte do aeroporto e eu poderia levar horas pra passar pela imigração e conseguir sinal. Imaginei que ela estivesse desesperada, a esse ponto, com a falta de aviso, e decidi ligar. Foda-se a tarifa (99 reais, aliás). “Tudo bem, filho. O importante é terem chegado sãos e salvos”. Eu tava calmo, agora. “Vi na TV que essa noite teve a maior tempestade de raios dos últimos 10 anos!”. Foi disso que a gente desviou, opa.

O Prince tinha morrido quando a gente chegou na imigração americana. Ninguém sabia o motivo ainda. Todo mundo parecia meio mal, fosse da viagem ou qualquer outra coisa.

Quando vi os barcos pesqueiros piscando na escuridão da baía de Tóquio, eu dei uma chorada de leve. O japonês ao meu lado fingiu que não viu. A Lô tava tentando lidar com uma família maluca do outro lado da cabine. Eu agradeci, como todo clichê ateu faz, a Deus, pela conquista.

Eu não conquistei nada, na real. Eu só fui levado lá. A grande custo, econômico e emocional. Mas pareceu uma vitória, dentro de mim.

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