RAW
Eu, Lô e Memé pegamos um voo em Londres com conexão em Frankfurt para descermos em Berlim. A gente só tinha 23 horas na cidade e queríamos aproveitar ao máximo.
Eram umas sete da manhã e chovia por lá. Céu cinza, vento gelado e a garoa fina me lembravam São Paulo, pra variar. Berlim, onde estávamos (do lado empresarial do centro), parecia uma terça-feira qualquer.
Mas a bad vibe era bem maior.
Foi dar dois passos na rua que a gente viu o primeiro marco no chão. “Por aqui passava O Muro”. Duas quadras pra frente, do outro lado da rua de um Starbucks, uma exposição lembrava o holocausto. Uma porta de ferro toda cheia de marcas de arranhões feitos às unhas se impunha na calçada.
Mais bad vibe. O ar é pesado, em Berlim. Ou talvez fosse a umidade daquele dia. Não voltei lá para tirar a dúvida. Ainda.
Mas a cidade é linda, claro. Mais acolhedora do que Londres, mais espontânea que Paris. Parece, ao mesmo tempo, que a vida toda flui mais livremente nas ruas por lá. Inclusive nas ruas que não têm semáforos.
Eu cometi o gigantesco erro de comer um salsichão na primeira padaria (sim) que eu encontrei. Tava gelada e horrível. Mas a mostarda é incrível. Quando finalmente encontramos comida de rua de verdade, salsicha aberta coberta de cheddar e bacon com cama de batata frita, eu tava sem fome alguma. Outra coisa que preciso corrigir, numa próxima oportunidade.
A gente encontrou com a Lila, uma ex-chefe minha e da Lô por lá, depois de passar no Colors, um brechó que vende jaco da Adidas por kilo. Eram umas 21h. Ela indicou pra gente dar rolê no RAW.

Tava MUITO escuro. Era MUITO noite. E, passando o arco, parecia que não tinha sociedade pra lá. Mundo invertido, sem luz.
Três segundos pisando na grama e nas pedrinhas de estacionamento, e alguém nos abordou. Eu não vi o cara chegando. Eu não ouvi ele chegando. Talvez ele simplesmente tenha se materializado ali. Eu não via o rosto dele, ou a forma do corpo. Tava muito escuro e ele usava roupas pretas, aparentemente. Nos falou algo em alemão, que obviamente eu não entendi. “Nein, nein, nein”, respondia a Lila, sem se preocupar, com as mãos nos bolsos do casaco. A gente seguiu em frente e deixou o cara pra trás.
“Ele queria vender heroína pra gente. Já pensou?”, a Lila traduziu.
HEROÍNA.
Droguinha é outra parada. Christiane F. que o diga.
Tem muito grafite no RAW. Tanto quanto casa abandonada. Elas servem de galeria ao ar livre pra artistas do mundo todo. É muito foda. Mas as casas abandonadas servem de tudo também. Puteiro, abrigo para os moradores de rua, balada sem fim…
“Aquela festa ali começou na quinta-feira passada e não parou até agora. Tem gente que entrou e ainda não saiu de lá”, contou a Lila. Era quarta-feira. Tem gente que nem ia sair de lá, imagino.
A gente passou num restaurante italiano pertinho dali logo depois. Mais um erro da viagem. A comida tava show, até. Mas estando na Alemanha, coma comida alemã, por favor.
Passamos n’O Muro pra pegar um pedaço dele pro meu pai. Ele guarda até hoje.
Nosso voo era 06h da manhã do dia seguinte. Pegamos um metrô para chegar num ponto de ônibus e, então, conseguir chegar no aeroporto. Todo o rolê porque era tudo de graça. Menos o metrô. Mas a gente pagou de otário e bons-cidadãos que somos, na real. Não tem catraca nas estações. O bilhete é só um comprovante de compra.
Quem não paga, no entanto, tá sujeito a cair na fiscalização dos tiozinho que entram nos vagões pedindo os bilhetes pra cada passageiro. Não apresentou? Multa. Vimos dois desses tiozeras entrando numa das portas do vagão ao lado do nosso, em certa estação. Muita gente saiu correndo pelas outras portas, antes delas fecharem.
Uma estação antes da nossa, enquanto a Melky e a Lô conversavam, eu tava num banco de frente, só me ligando num maluco ao lado delas. O cara tava travado de anfetamina, aceleradíssimo, olhando aqui e ali nelas. No que o metrô parou, eu me enganei e fiz o reflexo de levantar. Durante o movimento, me liguei que não era ali que desceríamos e logo sentei novamente.
Ele deu pala demais. Levantou junto comigo e, quando percebeu que eu sentei de novo, se tocou que não podia sentar também. Deu pala demais. Fez uma cara de desconcertado, saiu do vagão e logo colou numa mina. Mão no ombro, mão na cintura. Falou algo no ouvido dela. Ela parou, dobrou os joelhos, pegou a carteira acelerada. Entregou pra ele e lá se foi. Tremendo, ela mexia a cabeça pra lá e pra cá.
Eu me recusei a pagar um hotel. Era 01h da manhã e nosso voo sairia dali a cinco horas. Não tinha porque, vai. Dá pra dormir de boa no aeroporto, sério. Se você for jovem e tiver disposição. Meu tempo pra essas coisas já quase passou.
Tava tudo fechado no aeroporto, mas pelo menos tinha calefação. A gente achou uns banquinhos onde uma outra galera já tava deitada, abraçou as mochilas, tirou os tênis, botou os celulares pra carregar atrás de uma máquina de refrigerante e tentávamos dormir. Um guardinha logo veio encher o saco.
Ele pediu pra gente sair dali. Todo mundo. Separou os moradores de rua e levou pra uma outra área do aeroporto. E deixou a gente em uns banquinhos com alcochoado. Ele não falava inglês, então não adiantou perguntar pra onde a galera tava indo.
Quando deu 04h da manhã, eu consegui comer um sanduíche com salsicha que tava incrível, finalmente. A gente decolou pra Munique e de lá pra Paris.
A bad vibe passou.