Lisboa está onde sempre esteve. No seu interior as pessoas movem-se com os seus destinos individuais. Às vezes correm apressadas, atrasadas para o que não pode esperar.

A cidade imóvel todos acolhe.

Ninguém repara mas Lisboa muda. A cidade é um organismo vivo. As ruas, os edifícios e as pessoas que a palmilham compõem um corpo que nunca estabiliza.

Lisboa muda. Lisboa mudou mas permanece no mesmo local.

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É um ensinamento que urge manter sempre presente.

Crescemos, somamos translações da Terra e a disponibilidade para aprender encolhe. Não é um desinteresse consciente. Creio que é uma consequência da vida que se acumula. Há momentos em que parece que temos o que nos basta.

Semeamos para colher. Parar de semear, abdicar de colher é encalhar. Estagnar. Definhar.

Um dia, colher.

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Não podemos entrar na máquina do tempo.

O primeiro olhar só se cruza uma vez.

Não bebemos duas vezes o mesmo copo de vinho.

Estão por inventar meios para viajar ao passado mas, por incrível que pareça, fui pela primeira onde já tinha estado.

Não é magia. Regressei a um local que mudou. Eu já não sou a mesma pessoa. Não foi uma repetição.

Foi estar como não estive antes.

As primeiras fotos

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Sinto uma dor no joelho. Não é uma dor grave. Dói mas não faz o mundo parar.

O joelho queixa-se sem me limitar. Modero o movimento e ofereço-lhe o descanso em falta. É a dor de quem se mexe.

No sofá esta dor não existe. Nasceu distante desse templo e foi conquistada com esforço e dedicação.

¡no tocar!

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Após uma viagem onde passei por Mostar, na Bósnia e Herzegovina, escrevi:

As fachadas de vários edifícios estão dramaticamente cravadas de balas e para os mais distraídos há lembretes nas ruas: “Don’t Forget ‘93”.

Corria o ano de 2008 e como eu recordava perfeitamente o fim da Jugoslávia questionei-me ingenuamente se alguém se esqueceria das imagens assustadoras da guerra.

Negligenciei que a raça humana está iluminada pela habilidade de superar os traumas. As memórias nublam-se, tornam-se imprecisas e perdem intensidade. A vida gera afastamento para se reconstruir.

Atravessamos dias que chocam e parece prematuro assumir que um dia a invasão da Ucrânia estará diluída em memórias. No entanto, as guerras vividas pelas gerações anteriores, igualmente desumanas, esfumam-se em romances adaptados ao cinema.

É fundamental recordar para educar. Há comportamentos bárbaros que urge ter presente para não repetir.

Mostar, 2008

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Não sou igual ao meu vizinho. Ao microscópio as nossas diferenças são inultrapassáveis e esses pormenores definem as nossas identidades.

No entanto, se nos observarem do topo de um arranha-céus somos humanamente iguais e indistinguíveis.

Contra a guerra é essencial ultrapassar as pequenas diferenças que nos separam. Urge ser humano. A união é fundamental para enfrentar o horror.

Boicotar a união com a retórica da cartilha é asqueroso. Entre os extremistas nenhuma ala é pior. Os extremos tocam-se, confundem-se e são todos pré-históricos.

A nossa união é indispensável.

A união contra o horror

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A paz será para todos.

A guerra mais recente sequestrou-nos mas asfixia-nos cada vez menos. As nossas vidas escrevem-se, desde sempre, num mundo que permanece em conflito constante.

O quotidiano convive com bombardeamentos em terras distantes e dos escombros ouvimos a contabilização das vítimas. Assumimos, com certeza, que surgirá uma catástrofe pior.

A paz só existirá quando for plena. É uma utopia minada por egos gananciosos que semeiam horrores.

Sem uma paz universal sobrevivemos todos em luta.

Sobrevivemos neste filme.

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Ao rever os corpos tombados em Bucha, cujas imagens permanecem cravadas na memória, sei que a repulsa não seria idêntica se os restos abandonados fossem de militares invasores.

Perante uma invasão injustificável sou parcial. Mantenho-me ciente que a morte será sempre grotesca mas não hesito em escolher as cores que visto.

Na ausência de paz o “certo” é um conceito que perde objectividade. As atrocidades brotam da escuridão, as almas desesperadas apuram o instinto predador e o impensável é real.

Nunca existirá justiça para os inocentes.

O impensável é real.

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