Após uma viagem onde passei por Mostar, na Bósnia e Herzegovina, escrevi:

As fachadas de vários edifícios estão dramaticamente cravadas de balas e para os mais distraídos há lembretes nas ruas: “Don’t Forget ‘93”.

Corria o ano de 2008 e como eu recordava perfeitamente o fim da Jugoslávia questionei-me ingenuamente se alguém se esqueceria das imagens assustadoras da guerra.

Negligenciei que a raça humana está iluminada pela habilidade de superar os traumas. As memórias nublam-se, tornam-se imprecisas e perdem intensidade. A vida gera afastamento para se reconstruir.

Atravessamos dias que chocam e parece prematuro assumir que um dia a invasão da Ucrânia estará diluída em memórias. No entanto, as guerras vividas pelas gerações anteriores, igualmente desumanas, esfumam-se em romances adaptados ao cinema.

É fundamental recordar para educar. Há comportamentos bárbaros que urge ter presente para não repetir.

Mostar, 2008

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Não sou igual ao meu vizinho. Ao microscópio as nossas diferenças são inultrapassáveis e esses pormenores definem as nossas identidades.

No entanto, se nos observarem do topo de um arranha-céus somos humanamente iguais e indistinguíveis.

Contra a guerra é essencial ultrapassar as pequenas diferenças que nos separam. Urge ser humano. A união é fundamental para enfrentar o horror.

Boicotar a união com a retórica da cartilha é asqueroso. Entre os extremistas nenhuma ala é pior. Os extremos tocam-se, confundem-se e são todos pré-históricos.

A nossa união é indispensável.

A união contra o horror

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A paz será para todos.

A guerra mais recente sequestrou-nos mas asfixia-nos cada vez menos. As nossas vidas escrevem-se, desde sempre, num mundo que permanece em conflito constante.

O quotidiano convive com bombardeamentos em terras distantes e dos escombros ouvimos a contabilização das vítimas. Assumimos, com certeza, que surgirá uma catástrofe pior.

A paz só existirá quando for plena. É uma utopia minada por egos gananciosos que semeiam horrores.

Sem uma paz universal sobrevivemos todos em luta.

Sobrevivemos neste filme.

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Ao rever os corpos tombados em Bucha, cujas imagens permanecem cravadas na memória, sei que a repulsa não seria idêntica se os restos abandonados fossem de militares invasores.

Perante uma invasão injustificável sou parcial. Mantenho-me ciente que a morte será sempre grotesca mas não hesito em escolher as cores que visto.

Na ausência de paz o “certo” é um conceito que perde objectividade. As atrocidades brotam da escuridão, as almas desesperadas apuram o instinto predador e o impensável é real.

Nunca existirá justiça para os inocentes.

O impensável é real.

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“Parabéns” teria eu dito hoje.

Trocaríamos, com sorte, um sorriso e eu saberia que teria feito parte deste dia.

A última prenda que te ofereci tinha de ser duradoura. Não se poderia consumir no espaço de semanas ou meses… Antes já te tinha pedido desculpa e o tempo corria mais depressa que eu.

A água corre e a cortiça flutua (e dura).

Originally published at https://vyve.com on April 10, 2022.

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Pensei que a guerra não duraria.

As notícias, que consumi sem me consolar, estacionavam o invasor às portas da capital. A marcha seria coroada. A resistência era inexistente.

Não foi assim, a luta prevalece.

As fotografias que estes dias nos congelam exibem em bruto as atrocidades da guerra. A vida pode ter um preço inimaginável: a própria vida.

A ocidente do conflito, enquanto admirávamos uma coragem invejável, brotou a pergunta: estaríamos dispostos a lutar? A questão era provocatória e sugeria que não nos sacrificaríamos.

Eu desejo que nunca chegue o dia em que conheçamos a verdadeira resposta.

Há respostas que felizmente não temos.

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Não acredito que exista quem nunca tenha tropeçado na mentira. Ela, que é genuinamente humana, vive e reproduz-se entre nós.

Por seu lado, a verdade sempre elogiada peca por ser desnecessariamente cruel e corrosiva. Abrir-lhe cegamente o peito é uma vã coragem.

Será que na guerra a mentira também pode sossegar? Conseguirão as falsas promessas mitigar o sofrimento das almas feridas?

Mentir é uma arte subtil, é uma arma e em tempos negros o seu fruto traduz-se em vidas perdidas. A propaganda alimenta uma fogueira que tudo rouba.

Anunciar que se reduzirá a ofensiva militar é mentir. É atirar lenha seca.

Nada além do definitivo silenciar dos tambores será verdade. Só o silêncio será de ouro.

Por favor, silêncio!

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Hoje não estamos mais seguros. Hoje não respiramos mais distantes da tormenta. Permanecemos imóveis enquanto a guerra devasta vidas.

Anunciam-se cidades dizimadas e corpos abandonados que apodrecem. Há fome entre os vivos inevitavelmente já feridos no corpo ou na alma. Nas fotografias não se conservarão sorrisos e, apesar da cor, vejo-as a preto e branco.

No entanto, já nos habituamos a mais esta tragédia. Neste momento, não nos apavora como naquela manhã de fevereiro. A vida continuou.

O perigo é o mesmo mas julgamos saber em que trincheiras se esconde o inimigo. Cremos que os heróis seguirão na sua luta que nos protege.

Temos uma ameaça comum e isso cria uma união que nos conforta. Precisamos dela porque, seja qual for a causa, morreremos um dia. Só morreremos um dia e sobram-nos todos os outros para fintar a agonia e a raiva.

“in loving memory”

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