Histórias de criança
Nasci em maio de 1.977 e minhas primeiras lembranças da infância são do início dos anos 80. A essa altura meu irmão do meio já havia chegado. Nem me recordo de ver minha mãe grávida do Rafael. Só sei que ele veio ao mundo e logo se tornou o meu companheiro. Nunca tive esse negócio de ciúme de irmão, não, rs! E foi em meados de 1.982 que realmente percebi: sou uma pessoa (gente pequena).
Meu pai trabalhava fora e minha mãe trabalhava em casa. Morávamos no centro de Suzano, uma travessa da Benjamim Constant. A pediatra que de mim cuidou se chama Marlene. Acredito que ainda more em Suzano. A casa dela ficava ali na 9 de julho. Eu e meu irmão tínhamos vários brinquedos guardados em caixas de sapato. Na verdade eram bugigangas: bonequinhos, dominós, peças de lego, pilhas… Costumávamos juntar todas aquelas peças para montar cidades. Ou, às vezes, fábricas, palcos de apresentações musicais… Dependia do que a imaginação pedia.

Em 1984 chegou minha irmã Rita. Eu tinha 7 anos e estava na 1ª série. Fiquei na casa da avó Anna enquanto minha mãe esteve internada após a cesariana. Escolas estaduais estavam em greve naquela época (abril de 1.984). Eu adorava. Passava o dia brincando com o primo Ricardo, irmão Rafael e o vizinho Luciano, uma japa conhecido como Tiano.
Eu e Rafael acordamos cedo em um dia de semana para ir visitar mamãe no hospital. Descemos no Largo 1º de Setembro, em Mogi e compramos frutas com meu pai. Foi em um dos leitos do antigo hospital Mãe Pobre (atual Mogi Dor) que eu vi o rosto da Rita pela primeira vez. A visita foi rápida. Voltamos bravos. Era a saudades da minha mãe. Rita nasceu em um domingo ao meio-dia.
Ela cresceu rápido. Chorava alto, grave e grosso. Queria mexer nos nossos brinquedos. “Vocês brincam depois que ela dormir”, alertava mamãe. E era durante o tempo de sono da Rita que podíamos montar nossas cidades imaginárias. Certa vez tentamos entrar em um acordo. Mexer naquelas peças junto com a Rita. Não deu certo. Ela espalhava tudo. O mesmo aconteceu quando ganhamos os ônibus de Natal em 1.986 e ela queria sentar nos carrinhos. Tipo como se fosse um cavalinho.
A foto que ilustra abaixo foi feita em meados de 1985. Tenho quase certeza que foi meu pai que fez. Ainda vivíamos na nossa primeira casa. A tinta verde na camiseta do Rafael foi obra dele mesmo. Disse que queria pintar a camiseta branca e assim ficou. Rafael vivia rindo, principalmente quando lembrava de algo engraçado. Eu já tinha o Corinthians no peito, desde os anos 80. Sabia o nome de alguns jogadores. Lembro muito do Sócrates e Biro-Biro (camisa 5). Pouco antes do clique tive de segurar a Rita. Ela não parava quieta e ameaçava pular do sofá verde. Só acalmou depois do flash.

Lembrança de criança é um negócio engraçado. Às vezes dá impressão que não faz tanto tempo assim. Acho que os dias estão voando ultimamente. Vivi em uma época mágica: sem celular, sem internet, sem TV por assinatura. Quando eu era criança, as notícias do dia eram atualizadas à noite, nos telejornais. E de manhã meu pai lia tudo no jornal impresso (os desdobramentos). Nessa época, refrigerantes e bebidas alcoólicas eram vendidos quase que exclusivamente em depósitos de bebidas. E tinha que levar o vasilhame. Nas tarde de sábado, em vez de Caldeirão do Huck, tinha Cassino do Chacrinha. E Silvio Santos dominava os domingos.
Certa vez, em 1982 eu, mãe, Rafael (de colo) e um tio (de uns 12 anos) chegamos em casa por volta das 13h, em um dia de semana qualquer. Voltávamos de um supermercado em Suzano. Meu pai estava em casa, afastado do trabalho. Tinha quebrado o tornozelo jogando futebol com os colegas da firma. A perna engessada descansava sobre uma mesa de centro na sala. Nunca me esqueci desse dia. Assim que colocamos o pé para dentro de casa ele disse à minha mãe que alguém conhecido da televisão tinha morrido. (foi assim que mina cabeça entendeu na época). Era Elis Regina. E todos ficaram sentados diante da TV acompanhando os plantões nos telejornais. Eu, aos 4 anos, lembro muito bem desse dia.
Porém, minha memória fértil para coisas antigas não me mostra a época exata em que deixei de ser criança. Não solto mais pipa, não brinco de carrinho e deixei, há tempos, de montar cidades imaginárias. Perdi cabelo, fiquei gordinho e estou prestes a casar-me (um pouco tarde pelas leis da sociedade. Será?) Mas, principalmente quando me junto aos meus irmãos, em alguns momentos, me sinto criança novamente. Vejo a Rita espalhando os meu “brinquedos” (quando ela fala brava comigo) e o Rá (Rafael) ainda ri quando se lembra de alguma bobeira. Mas na essência e sob o olhar da minha mãe, ainda somos crianças, rs!
