Maguro e Yama

Paulinho é taxista. Adora esportes, principalmente futebol. Diz ser palmeirense, mas, na verdade, é o tipo de torcedor que curte mesmo um bom jogo de bola. Já foi, inclusive, jogador da várzea. É casado, tem filhos que já moraram no Japão, vive em Mogi das Cruzes, mas tem a capital paulista na palma da mão. O sujeito japonês de estatura baixa é antenadíssimo. Mantém sempre um jornal impresso no carro e o rádio sintonizado no noticiário.

Conheci o senhor Paulinho em uma tarde de calor em meados de 2013. Quando entrei no carro, ouvi a voz de alguém conhecido da televisão. Estranhamente pensei: “Essa voz não vem do rádio”. Ajustava o cinto de segurança, enquanto o veículo ainda ia em marcha à ré — balizando no estacionamento da emissora onde trabalho — quando notei um monitor ligado na Rede Globo dentro do automóvel. Era de lá que vinha a voz do Evaristo Costa, apresentador do Jornal Hoje.

O carro do senhor Paulinho é novo, macio e confortável. Ele dirige de maneira suave. Passa devagar nos buracos e não se estressa com as coisas irritantes do trânsito pesado. Fala em tom baixo e gosta de contar histórias. Curte os Beatles também. O taxista acorda cedo. Às 5h30 vai caminhar com a esposa. “Só não caminho quando tem corrida para o aeroporto cedinho”, explica.

De vez em quando, usa um Crocs azul claro. Deve calçar 38. Esta sempre do mesmo jeito. Mantém-se no equilíbrio e gosta de rir. Eu não sei o sobrenome do Paulinho. Acho que nunca perguntei isso. No entanto, faço inúmeras outras perguntas, principalmente sobre sua infância ou a respeito do Japão. “Eu nunca fui para o Japão, mas meus filhos moraram lá. Meu irmão também”, conta com orgulho.

Paulinho me ensinou que atum em japonês é ‘Maguro” e montanha se diz “Yama”. Contou que naquele país o operário ganha por hora. “Meu pai veio do Japão e conheceu minha mãe aqui no Brasil, em uma fazenda. Aprendi a falar japonês com ele. Quer dizer, mais entendo o japonês do que falo. Eu sou o filho mais novo”, contou.

É honesto. Basta observar. Cobra o valor justo e acaba ganhando mais clientes por causa disso. “Sempre um indica para o outro, né?”, explica o motorista. O celular dele toca quase todas às vezes que eu ando em seu táxi. Quando está ocupado, passa a corrida para o sobrinho, que ostenta o mesmo ofício.

Tem mania de anotar o valor ganho nas corridas em um papel retangular que fica perto do câmbio. Apoia o recibo na perna direita para preenchê-lo. Faz isso com uma caneta bic azul. Sempre tem troco e agradece.

E quase todas às vezes que ando com o Paulinho, principalmente pela manhã, acontece a mesma coisa. Pouco antes de descer, logo após os agradecimentos e despedidas, ele, quase sempre, saca uma sacolinha com um pacote branco e diz. “Toma. Isso é pra você”, diz.

Paulinho tem o hábito de nos doar lanches.