Mamonas Assassinas

Fui acordado antes das 10h naquele domingo estranho. Chacoalharam minhas pernas e assim que abri os olhos vi minha mãe. Ali mesmo ela me deu a trágica notícia. A informação tinha chegado em casa pouco antes, via fone, por meio da minha tia Nazareth, que soube do ocorrido no rádio. Logo em seguida, o telefone tocou de novo: era Carolina Fiamini, amiga de escola da minha irmã. A menina de 12 anos disse chorando: “Os Mamonas morreram”.

Em Mogi das Cruzes, horas antes, um outro telefonema calou uma família no Mogi Moderno. O homem de 45 anos, chefe de família, veterinário, que atendeu à chamada, tinha acabado de chegar de um jantar com amigos. A notícia veio como uma bomba e deixou todos desnorteados. Logo depois chegou o filho do veterinário. O jovem de 17 estava jogando futebol com os amigos. Os pais lhe deram notícia.

O veterinário de 45 anos, Chikara Hinoto (foto acima) é o irmão mais velho de Bento Hinoto — o japonês guitarrista dos Mamonas Assassinas, que na verdade se chamava Alberto Hinoto (há uma avenida em Itaquaquecetuba com esse nome. É uma homenagem ao guitarrista).

Chikara morou em Mogi das Cruzes entre os anos de 1.978 e 2003. Foi funcionário da Prefeitura e teve um comércio na cidade. Atualmente, possui uma clínica veterinária em Itaquaquecetuba e mora em Guarulhos, no bairro Bom Clima, com a mãe, Toshiko Hinoto, de 90 anos (completados recentemente)

Eu conversei com o Chikara, por telefone. Sempre fui fã dos Mamonas e, neste caso, os 40 minutos de bate papo me fizeram disparar o coração. E eu pensava: “Tô falando com o irmão do Bento”. A mesma sensação de quando fiquei frente a frente com o pai do Dinho, em agosto de 2.014.

Chikara fala pausadamente. Tem um leve sotaque japonês se refere ao Bento, o irmão guitarrista que cativou o Brasil, como um filho. “Perdemos nosso pai quando Alberto [Bento] era novo. Me tornei como pai dele”, disse.

O veterinário conhecia bem os integrantes dos Mamonas. Ele, inclusive, frequentava os ensaios da banda, pouco antes da fama chegar. Gosta de lembrar como tudo começou.

“Meu outro irmão Maurício Hinoto trabalhava na Olivetti, uma empresa em Guarulhos. Ele trabalhava na mesma seção do Sérgio, baterista dos Mamonas. Meu irmão Maurício então apresentou o Alberto [Bento] para o Sérgio e eles começaram uma amizade. O Samuel, irmão de Sérgio, também passou a acompanhá-los e eles formaram uma banda, um trio. Certa vez, em uma apresentação, começaram a pedir uma música e não tinham vocalista. Dinho estava assistindo e se ofereceu para cantar. Depois disso veio o Julio. Assim eles formaram a banda“, disse Chikara.

Minha aproximação com o irmão de Bento só foi possível graças ao jovem Fernando Hinoto. O filho do veterinário, via Facebook, atendeu ao meu pedido e me colocou diante de seu pai. Foi ele que me ajudou com informações e fotos antigas. Olha ele, ao lado Dinho, nesse registro abaixo.

“Ele [Bento] seria 10 anos mais velho que eu se estivesse conosco. Ele me ensinou andar de bicicleta, skate , tênis de mesa… O tempo transforma a dor em algo suportável e o carinho dos fãs, que hoje são meus amigos, torna tudo mais confortável. Na verdade são os fãs que imortalizaram os Mamonas Assassinas”, disse Fernando.

Os Reolis
 
Havia dois irmãos na banda: Sérgio e Samuel Reoli. Há cerca de um ano, eu conheci, via Facebook, a irmã mais velha deles: a dentista Sueli Lacerda, que mora em Guarulhos E, desde então, passei acompanhar as fotos inéditas da rotina dos irmãos, na época do auge da banda, que ela costuma postar naquela rede social.

Ela me contou onde estava na noite do acidente:

“Eu havia saído com meu marido mais um casal de primos. Íamos em um barzinho, mas, naquela noite nada estava bom. Fomos em vários lugares, mas não ficamos em nenhum.Voltamos para casa e quando minha mãe abriu o portão, já nos recebeu chorando dizendo que o avião dos meninos havia sumido. Era por volta de meia noite. Ficamos nessa angústia até umas 6 da manhã, quando fomos informados que tinham encontrado o avião e os corpos”, lembrou Sueli

Sueli me disse que foi a 27 shows dos Mamonas em sete meses de sucesso. Ela gosta de todas as músicas, mas guarda duas como sendo as favoritas: Robocop Gay e Vira Vira

“São 20 anos de saudades e muitas lembranças. Lembrança da infância: quando meus pais iam trabalhar e eu ficava tomando conta deles [Sérgio e Samuel] Limpava a casa bem rápido pra poder brincar. Brincávamos de bola, de ficar na rua andando de bicicleta, bolinha de gude. Eles gostavam de carrinho de rolemã também”, conta.

A primeira vez
 
Eu, Douglas Pires, conheci os Mamonas em meu primeiro emprego, uma papelaria em Suzano. Certo dia, em meados de junho ou julho de 1.995, um colega, o Edgar Lucena, chegou do almoço empolgado. Passava das 13h. Contou que tinha ouvido uma música sensacional. Fica esperto que vai tocar no rádio”, disse. Naquele tempo era preciso esperar a boa vontade das emissoras para saber mais sobre uma música. E tinha mais: memorizava-se a letra na raça (ouvindo várias vezes)

E meu amigo Edgar chegou dizendo: “Os caras [Mamonas] são malucos. Tocam rock, mas é diferente. Tem uma música que fala de uma Brasília de portas abertas”.

Mais tarde a música surgiu na programação da emissora. Gostei na mesma hora. Naquele mesmo fim de semana eu e meus irmãos já ostentávamos uma fita cassete com as canções gravadas. Uma amiga da minha irmã emprestou um LP e a reprodução foi feita no aparelho 3 em 1 do meu quarto.

Pirei nas fotos da capa do disco. Quis comprar um tênis da marca Cônverse. Se não me engano, o mesmo que o Dinho usava na foto do disco. Mostrei as músicas pros meus pais. Eles riram. E muito.

Os dias se seguiram e em um domingo e eu passei várias horas diante da TV. Os caras estavam ao vivo no programa do Gugu. Jamais esqueço daquele dia. Se não me engano foi um dos recordes de audiência no SBT. Os Mamonas ficaram no palco por várias horas.

Ainda, naquele domingo, eles fizeram um show em Mogi das Cruzes, no antigo La Boom. Só um toque, o La Boom também já recebeu os Ramones e a Shakira. Lembro deles também programa na Estrada da MTV. Às vezes ainda assisto essa participação no YouTube.

Depois que minha mãe chacoalhou minhas pernas e me deu a notícia, naquele domingo, eu tratei de levantar. Ainda atônito fui pra sala. Foi nessa hora que a amiguinha da minha irmã Rita ligou.

Na TV, ao vivo, estava a imagem do helicóptero da polícia resgatando os corpos na mata. E a repórter Eleonora Paschoal, na aeronave da GLOBO, ia narrando tudo.

Mamonas deixaram um grande vazio. Não há quem não lembre dos caras com carinho. O Brasil sentiu o peso de duas perdas em menos de três anos: Ayrton Senna, em maio de 1.994 e os Mamonas naquele 2 de março, em 1.996.

“Os Mamonas estão mais vivos do que nunca” — Chikara Hinoto

A frase do irmão de Bento tem muita lógica. É verdade, os caras estão entre nós. E suas canções continuam cada vez mais atuais. Pau que nasce torto continua mijando fora da bacia e os shoppings centers ainda são locais para dar uns rolêzinhos.