Obrigado, Jó
Aos 8 anos, eu estudava de manhã na escola Marques Figueira, em Suzano. Todos os dias, por volta das 7h, caminhava até a casa da minha avó, a poucos metros de onde morava. Lá me encontrava com tio Jorge, mais conhecido como Jó, e juntos seguíamos a pé: eu para a escola e ele rumo ao escritório onde trabalhava. Uma andança de mais ou menos 30 minutos.
Meu tio tinha as passadas largas e eu tentava acompanhá-lo quase trotando. Minhas canelas doíam, mas logo me distraia e o incômodo passava. Levava uma mochila azul pesada e, quase sempre, o Jó a carregava.
Descíamos a Rua João Balbino Dias. Lá no final encontrávamos vários caminhões de uma empresa de gás. Os veículos ficavam ligados, talvez para esquentar os motores a diesel. Essa foi a explicação que eu recebi do tio na época.
Cruzávamos uma Suzano que não existe mais. Para se ter uma ideia, parte da Avenida Armando Sales era de paralelepípedos. O asfalto chegava somente até o cruzamento com a Rua Tiradentes. Tinha até uma subidinha, uma pequena elevação nesse trecho. Quem lembra? Depois caminhávamos pela tranquila e silenciosa 9 de Julho, naquele tempo, 100% residencial. Às vezes eu e o Jó lembramos disso tudo. Rimos, é claro.
E na nossa caminhada conversávamos sobre vários assuntos, afinal, sempre fui questionador. Era uma rotina. Lembro de um homem que saía com um cachorro para passear. Eu e meu tio apelidamos o cãozinho de “robozinho”. Era um horário de saída das pessoas, portanto, em muitas garagens havia carros ligados do mesmo modo como os caminhões da empresa de gás. Fecho o olho e lembro dos modelos da época: Corcel II, Belina, Fusca e Chevette.
O escritório onde meu tio trabalhava era perto de um local em Suzano conhecido como Caixa d’ Água. Um lugar longe, na minha imaginação geográfica infantil. Na volta, às vezes, minha tia Cida (na época adolescente) me pegava no colégio. Lembro de uma vez que ela foi assaltada na Rua XV de Novembro. Ficamos preocupados, afinal, era algo raro na época e ainda mais na pacata Suzano.
Ainda voltando para casa, na caminhada, eu gostava de passar por um jardim gramado de uma casa de esquina. O imóvel não tinha muros e eu sempre corria pelo gramadão. Parecia um tapete. Uma vez minha mãe contou que lá morava uma professora. Hoje aquela casa não existe mais. No lugar está o edifício Amsterdam (Veja foto abaixo)

Talvez fosse uma felicidade caminhar por Suzano nos anos 80. Hoje eu enxergo dessa maneira. Uma época sem as tecnologias atuais. Exemplo: para trocar o canal da TV, era preciso se levantar do sofá. Controles remotos não eram tão comuns.
Se eu quisesse saber mais sobre um assunto dito pela professora na escola, tinha que caminhar até a antiga biblioteca na Rua Baruel. Fiz isso várias vezes. Eram bem menos carros e mais pedestres. Alimentação saudável e pessoas bem mais esbeltas.
Estes dias vi um menino reclamando com a avó por ter andando muito na volta da escola. Eu caminhava bem atrás deles na Rua Rui Barbosa e não pude deixar de ouvir o diálogo. Ela, que devia estar na casa dos 70 anos, explicava para o garoto o trajeto de quilômetros que fazia para chegar ao colégio quando era menina O garoto loiro, com um tablet na mão, nem ligou.
Hoje sinto que, de alguma maneira, aquelas trotadas rumo à aula me levaram ao adulto que me tornei hoje. Foi uma andança saudável, não só no sentido literal da palavra. Um caminhar que contribuiu para a edificação de um caráter. Meu tio Jorge sempre foi um exemplo de homem correto e continua sendo.
Andar não faz mal. Obrigado, tio Jó.