Peleja de rua

Futebol: era praticamente só nisso que pensávamos nas férias quando moleques. Se não dava para ir ao campinho, o rachão era no paralelepípedo mesmo. Um desafio manter a bola dominada em meio as imperfeições daquele solo nada apropriado para um jogo de bola. Quantas vezes ouvi minha mãe dizendo: “Isso é um perigo. Se cair aí o tombo é feio”. Mas de nada adiantava. Não tinha coisa mais emocionante que uma peleja naquele “campo petrificado”

Os gols eram feitos com velhos chinelos. Às vezes usávamos pedras de concreto. A regra era, na verdade, um acordo entre os jogadores. Se a bola passasse muito alta não era gol. Se entrasse na diagonal abria-se uma discussão. Ganhava quem tinha melhor argumento e voz mais alta. Teve um dia que fizemos até campeonato na rua.

Às vezes a bola atingia algum pedestre. Em outras ocasiões carimbava a Brasília azul do vizinho. Dava pra sentir que boa parte dos moradores da rua não curtia a nossa brincadeira, mas a gente vibrava, suava, dava o sangue ali. A pelota vivia caindo no quintal do pessoal. Era só bronca. Duas coisas decretavam o fim da brincadeira: mães berrando nossos nomes ao anoitecer ou bola furada na lança de algum portão.

Os irmãos chilenos (Valdo e Jorge) arrebentavam na rua. Baixinhos, marrudos e raçudos. Passaram a infância conosco e voltaram para o Chile há mais de 10 anos. Sobraram as redes sociais para matar a saudade. Aquela conversa digitada em portunhol, manja? O César era bom de bola na rua. Chutava com a esquerda, tinha habilidade e gostava de futebol. Atualmente mora na Europa. Virou jogador de futebol profissional.

Meu irmão Rafael só queria jogar com meu primo Ricardo. Os dois tinham um entrosamento fantástico e ganhavam todas. Meu primo Rodrigo, às vezes, jogava conosco. Hideki suava a camisa e depois ia para casa jogar Nintendo. Paulinho corria descalço na pedra e reclamava de tudo. O típico chorão.

Os irmãos Júlio e Beto não tinham tanta habilidade, mas esbanjavam raça na zaga. Na verdade, minha habilidade também era zero. Gordinho… não aguentava correr muito. Por outro lado, tinha força no chute. O que chamávamos de “Vadú” (piada interna)

Lembrei de tudo isso na tarde de um domingo de novembro quando observava uns moleques jogando bola no estacionamento de um condomínio em Suzano. Era tanta alegria, tanta empolgação. Dava gosto de ver. Teve uma hora que um foi correndo com a bola dominada, fingindo estar driblando alguém. Ele ia sussurrando uma narração esportiva, sabe?

De repente, um chute forte e meu carro foi carimbado: poft na lataria da porta do motorista. Levei um susto e pensei: “Imagino o que meus vizinhos sentiam quando éramos criança”. Fiz cara feia, mas por dentro eu ri.

Me vi naqueles moleques, rs!