Retalhos

Foi num daqueles dias que a gente sai do trabalho precisando de uma cerveja, sabe? Liguei para alguns amigos, mas pouca gente toparia sair de casa numa terça-feira à noite. Resolvi ir assim mesmo, eu alugava o apartamento de cima do dono do bar então estava literalmente em casa. Pedi a de sempre e sentei na mesa de sempre, meu antigo bar/lar parecia sem muitas alterações até que você e aquela sua amiga que eu sempre esqueço o nome chegaram. Esqueço dela porque você, seu cabelo curto e seu batom vermelho roubaram toda a minha atenção sem nenhum esforço. Só quando ela foi ao banheiro e te deixou sozinha eu juntei coragem para ir me apresentar. Eu não poderia saber, mas aqueles passos desajeitados que eu dei até a sua mesa eram o começo de algo grande. Pelo menos pra mim.

A Su tinha acabado de receber uma promoção no trabalho. Me ligou eufórica, queria comemorar. Rodamos a Lapa atrás de um barzinho. “Não quero ir nos que sempre vamos! Hoje é dia de mudança”, ela me dizia. Achamos um boteco, meio rústico, mas de aparência agradável. “Ali! Vamos naquele”. Saímos do carro e ela começou a cantar — O que me fez suspeitar de que a comemoração dela já havia começado há algumas horas. Mas, eu não podia negar de que a noite estava agradável. Era uma girl’s night out em plena terça-feira… O bar estava vazio, com exceção de uma mesa, no canto, onde um rapaz estava sentado sozinho. Muito discretamente, eu dava umas espiadas na sua direção, para saber se vinha alguma garota te encontrar. Mas, para a minha surpresa, ninguém apareceu. E quando a Su precisou sair, me surpreendi ainda mais por você vir se apresentar.

Te dar a coleção do Conan Doyle que você já estava a fim desde o nosso segundo encontro nem se comparou ao seu convite, depois de seis meses de namoro, para morar com você. Tudo bem, eu morava na região central e você na parte mais arrumada da cidade, mas mesmo assim o metrô resolvia nossos encontros. Eu quase recusei porque mal conseguia cuidar do meu apartamento pequeno sozinho, imagina o estrago que eu poderia fazer numa casa como a sua. Mas você já percebeu que eu não consigo negar nada que você pede quando morde os lábios, ansiosa por uma resposta, né? Meu primeiro pensamento, depois de dizer sim, foi achar que eu ia precisaria levar mais do que uma coleção de livros do Sherlock Holmes pra montar nossa casa agora, mas depois você me abraçou e eu vi que já tinha ali tudo que eu precisava.

Se dependesse de mim, eu teria te chamado para ficar desde a primeira vez que você botou os pés lá em casa. A gente encaixa demais, sabe? Mas eu não podia me precipitar. “Pés no chão. No chão!”, eu repetia para mim mesma. Mas eu não queria mais esperar o final de semana para te ver. Ou contar com algum furo na agenda da semana para que você viesse ou eu fosse até você. Eu queria você para mim. E queria ser (ainda mais) sua. Apesar da surpresa, eu também vi a alegria nos seus olhos quando te falei para não ir embora nunca mais daquela casa. O abraço que seguiu o convite reforçou a minha crença de que nós pertencíamos àquilo. Naquela noite, encerramos a entrega um ao outro: éramos nós, enfim.

Consigo ver que nós dois fizemos de tudo pra dar certo, e isso é o que dói mais. As carreiras fizeram nossas rotinas se desencontrarem tanto que muitas vezes você chegava trazendo o vinho e eu já tinha ido dormir, em outras, eu preparava o café da manha com todas aquelas geléias que você gosta tanto, mas você tinha uma reunião cedo e não podia ficar. Tentamos, mas perdemos pra vida. Agora eu não sei mais o que fazer com todos os nossos planos e ensaio no espelho o que eu te diria se pudesse ver de novo.Te diria que depois daquela viagem, eu pedi demissão e me prometi que não deixaria mais o trabalho ou a vida corrida atrapalharem minha felicidade. Te contaria que agora meus relógios estão com os ponteiros mais flexíveis e podem se ajustar aos seus. Pedro, que ainda é dono, me pergunta porque eu atravesso três bairros pra continuar vindo aqui para o bar de sempre, pedir a cerveja de sempre e sentar na mesa de sempre. Eu desconverso com alguma coisa sobre futebol porque a verdade é difícil dizer: mesmo depois de dois anos eu ainda espero que algum dia você se lembre do que a gente começou aqui e volte pra fazer nosso conto acontecer.

Eu tinha tudo sonhado. Tudo. Até o rostinho dos nossos filho (e eles eram lindos). Mas os furos nas agendas continuaram não sendo rotina. Um dia, eu chegava de madrugada por causa de eventos do trabalho. No outro, você precisava sair mais cedo porque tinha um vôo para pegar. A casa se tornou um labirinto no qual nunca nos encontrávamos. Não vou dizer que a culpa foi minha ou sua… Aprendi que não adianta apontar nessas horas. De que adianta? Não precisou ser feito um convite dessa vez. Um dia, voltei para casa e suas coisas já não estavam lá. Só havia um bilhete: “Eu queria ter te esperado para te olhar nos olhos e dizer que sinto muito. Mas adivinha? Preciso ir para Brasília de novo. Eu quero que você fique bem e seja feliz. Você é maravilhosa e te encontrar foi um dos melhores presentes que a vida me deu. Eu queria que nosso timing tivesse colaborado. Mas, foi como aquele episódio de How I Met Your Mother bem explica: ‘Timing is a bitch’. Eu amo você. Beijos e se cuida”. Eu não tinha resposta. Doeu, mas não surpreendeu. Eu sabia que aquilo aconteceria, hora ou outra. Já foram dois anos, amor. Eu troquei de emprego essa semana. Minha vez de chamar a Su para comemorar. Consegui algo mais estável, sem tantas loucuras fora do expediente. Fomos ao bar e, aqui de fora, já vi você tomando cerveja na nossa mesa. Ela também te notou e já veio rápido me perguntar: “Quer ir para outro lugar?”. Sempre acreditei em destino e, por isso, neguei a mudança de planos. Nós estávamos ali novamente por algum motivo. E eu queria pagar para ver.


Texto escrito à quatro mãos com a talentosíssima Leca Lichacovski que escreve no http://www.cerejanoombro.com/ e também é colunista no http://www.entretodasascoisas.com.br