NOITE EM CLARO

Há pouco, apenas a luz alaranjada do poste solitário penetrava a escuridão do quarto. Há pouco, tudo era silencio ritmado pela chuva constante caindo nos telhados. Agora, a artificialidade social invadia o dia, que vinha subindo sem pressa no horizonte distante. Aos poucos, guarda-chuvas negros e longas capas pretas iam surgindo por detrás da neblina densa. Poças refletiam o alaranjado quente do poste proeminente. Nuvens carregadas de lagrimas corriam sobre as cabeças maquinadas. No quarto, protegido pela cortina da invisibilidade, tragando o sexto cigarro da noite, observava tudo como coadjuvante da própria vida. Fazia o papel de fantasma que há muito lhe foi dado, indo e vindo sem se fazer notar, sem deixar-se tocar pelo que pede, sofre, ama e morre. Suspirou fundo, tragou longamente, apagou-se a luz do tabaco, pegou o casaco mofado, saiu para o trabalho. Agora ele era mais um casaco preto na multidão, mais um guarda-chuva negro escorregando entre as poças refletidas do chão. Agora era mais um em meio a tantos fantasmas, passando sem ir, vindo sem voltar, vivendo sem notar que os céus choram as dores dos invisíveis esquecidos.