Carta pro Douglas de 24 anos

Douglas Rocha
Nov 5 · 5 min read

Juiz de Fora, 15 de julho de 2011/Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2019


Oi, Douglas! Hoje o dia foi especial, não? Você surpreendeu a Cíntia com as flores ainda de madrugada e depois com o pedido de casamento à noite durante a comemoração do aniversário dela. Foi uma ótima sacada aproveitar que os amigos de vocês estavam reunidos e fazer o pedido através do bolo.


Seus amigos reunidos, a galera empolgada e surpresa te felicitando, você está muito feliz. Mas está feliz porque vai casar ou porque o circo que você armou deu certo e todos estão massageando seu ego?


Você não pensou muito para armar isso tudo, né? Ligou o piloto automático e acha que essas discordâncias entre vocês dois fazem parte da vida.

Sei que você está curioso para saber se vai dar certo. O que te adianto é que a cerimônia e a festa serão incríveis, com muita gente querida, inclusive gente que não está mais aqui comigo.

Mas sabe esse costume seu de não tomar as rédeas da situação, de deixar as coisas fluírem e avisar que Deus cuida de tudo? Isso já vai te frustrar logo na celebração. Você não vai curtir a presença das pessoas para seguir o protocolo de cumprimentos e fotos. E depois você vai perceber que aquilo tudo é um exagero, que se casar para 220 pessoas só para não bater de frente com seus pais e seus sogros é um exagero. Casamento por si só é um exagero, e conversei bastante com o Tizil a respeito. Como era previsto, embora ele negue pra você e toda a moçada, ele encontrou uma mulher maneira, super parceira dele, e se casou há um mês.

Antes de voltar ao seu casamento, vou aproveitar o gancho para falar dos seus amigos. É louco como você acha que a amizade com os caras do CPV é inabalável. Você pensa: “Se nem a distância, nem os rumos diferentes, nem o dinheiro, abalaram a relação, nada mais vai abalar”. Errado!

Você vai conhecer gente de todo tipo, de diferentes países, vai ter a cabeça mais aberta, enquanto muitos deles continuarão no mesmo lugar — e não é só no mesmo lugar físico. Você tem um trio de preferidos e, entre eles, já foi mais próximo do Zelito, até por questões de geografia, de pegarem ônibus junto, de irem às mesmas festas de faculdade; depois colou no Doug, por causa do futebol e da amizade entre a Cíntia e a Bianka.

Pois bem, vai chegar a vez do Tizil. É conversando com ele que você vai ver que o mundo pode e tem que ser melhor e é ele quem vai tentar te colocar posta frente, mesmo que você não saiba para onde ir. O pessoal da faculdade, principalmente o Basileu e o Latino, a quem você nem sempre dá o devido valor, ganharão importância quando os antigos melhores amigos se mostrarem egoístas, elitistas, racistas, homofóbicos e misóginos. Sim, você também é isso tudo, mas vai se esforçar a cada dia pra mudar, e eles vão parar no tempo.

Você pode não acreditar, mas vai passar um ano afastado desse grupo que você acha inabalável, vai ficar um ano de gelo completo com o Zelito, mas vai perceber que não é assim que se melhora uma sociedade e vai reatar os laços. Porém, jamais vamos voltar para este muro no qual você costuma subir quando as discussões apertam.

Ser vilão te incomoda, não é verdade? Colocaram em você um selo de bom moço, você não faz questão de se vangloriar disso, mas também não faz o mínimo esforço para retirá-lo. No entanto, isso vai mudar.

É duro te dizer isto bem no dia em que você ficou noivo — cara, a Morena estava certa, isso de noivado é bem demodê haha — , mas você está certo nesta sensação de que com a Cíntia não é para sempre. A coragem de desligar o piloto automático, enfrentar os olhares atravessados vai vir até mais rápido do que você imagina. Vai ser duro pra caralho, vai haver momentos em que você vai sentir vontade de desistir de desistir, mas vai manter uma firmeza doce que vamos desenvolver com o passar do tempo.

E quem vai ser determinante nisso vai ser a Carolina Radusewski, que vai entrar na Efe enquanto você e Cíntia viajam para a Disney. Que depois vai virar Carol e depois Catarina. Esses flertes descompromissados que você costuma lançar no ar — eu não faço isso, juro hahaha — vai pegar uma mulher que combina com você como nenhuma outra que a gente conhece. Tem amizade, parceria, entrosamento e química no relacionamento com a Catarina, além do principal, e que te falta com a Cíntia: amor. Amor não resolve merda nenhuma, mas sem ele é impossível tocar qualquer barco.

Os filhos ainda não vieram. Você tinha certeza que viriam antes dos 30, mas Carol e eu estamoa em busca de condições ideais que dificilmente virão. Já já a gente se convence a abaixar o nível de exigência e povoa o mundo.

No meio do caminho, você e eu nos perdemos profissionalmente e agarramos na Efe. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos foram inesquecíveis, prometo contar para os nossos netos, mas jornalismo esportivo sem iniciativa, sem saber encher o saco das pessoas certas, como a gente faz, é muito mais difícil.

Cogitamos concursos públicos, poker, apostas esportivas e psicologia, mas até agora não dei sequência em nada. Estou perdido, mas logo logo eu me acho. O importante é que entendemos que chegar “lá” é menos importante que viver coisas boas no agora.

E você nem poderia imaginar, mas te escrevo de dentro de um avião rumo ao Uruguai. A viagem não é apenas um passeio, é uma busca por uma vida nova. A Catarina acredita mais neste sonho que a gente, mas já aconteceu um primeiro passo, que foi ter assimilado que esse sonho também é nosso. Se deu certo ou não, quem vai nos contar vai ser o Douglas de 40 anos.

Vô Juca se foi e não pôde abraçar a primeira bisnetinha, Cécile, filha da Cássia com o Medo, um francês que ela conheceu no intercâmbio no Canadá, que deve estar acabando por agora — no seu “agora”. E já está por vir o(a) segundo(a) integrante da quarta geração de Marmotas, o(a) filho(a) da Lívia.

Vô Zé também morreu, e até o padrinho Marquinho, que infelizmente não vai ver Wanessa e Ygor se tornarem médicos. Quase todo mundo está progredindo, só o Yago ficou para trás, enquanto nós estagnamos. Mas ainda é tempo, e, embora o tom desta carta possa indicar o contrário, estou satisfeito com as nossas conquistas e esperançoso quanto ao que está por vir.

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