“A religião do filósofo, porém, tem a cor da natureza, ela é a poderosa religião daquele que desce com ousada coragem às profundezas da natureza” Schelling, Aforismos para Introdução à Filosofia da Natureza. Pág. 37

Filosofia… Uma palavra carregada de mistérios. Vive constantemente no limiar entre a atividade intensa e a vagabundagem total. É sempre difícil capturá-la para dar-lhe definições. A filosofia, maleável como é, sempre escapa, sempre nos escorre entre os dedos, mesmo de um punho fortemente cerrado. Pensar no que é a filosofia, para mim, é como a imagem de minha filha brincando com Amoeba. Por mais que ela nunca consiga segurar o brinquedo totalmente em suas mãos, por mais que este escorra, fuja, caia, por isso mesmo, é extremamente divertido, prazeroso. É a aventura de dar forma ao disforme que torna a alegria de brincar tão viva. É possível picotar a Amoeba em bilhões de pedaços. Mas, sempre que minha filha a reúne novamente, lá está ela, gosmenta e escapante, pronta a divertir e embelezar um dia comum.

Filosofar é como brincar de Amoeba

Para tornar a filosofia um pouco mais rígida (no sentido material da palavra), um pouco mais sólida, às vezes se torna necessário fazermos alguns agenciamentos, aglutinações, composições. É o caso da ideia por trás do nome deste espaço. Ecofilosofia. E, ao pronunciarmos este nome, ressoa em nossa mente, assim como em nosso corpo (porque a filosofia também é uma atividade física!) o eco de um estrondo violento. Como um trovão num dia de fúria de Tupã, a Ecofilosofia vem ao nosso encontro para nos alertar da tempestade que se forma no mundo. Vem para ajudar a entender as consequências de nossas atitudes impensadas para com a natureza, ou Deus, ou nós — ambos são a mesma coisa, vistas sob aspectos diferentes.

Antropofagia, Tarsila do Amaral.

Ecofilosofar é filosofar como o eco de natureza que somos. É denunciar as armadilhas de um mundo dominado pela racionalidade técnica, “pela maximização dos recursos com o emprego mínimo de meios”, como diria o filósofo Umberto Galimberti.

Ecofilosofar é também se abrir para a poética existente nas coisas. É olhar as estrelas nos olhos do outro. É enxergar a profundidade que existe em cada canto do mundo. Um pequeno jardim, uma planta que nasce na calçada, entre as brechas e rachaduras no concreto. São meios que esta grande existência da qual fazemos parte busca para perseverar, ou seja, manter-se existente. Pensar sobre isso, se dar ao trabalho de debruçar-se sobre temas simples e às vezes banais em nosso cotidiano, é filosofar.

A filosofia também é poesia, mas não tão inconveniente a ponto de ressoar a partir de um único sujeito. Ao contrário, ela é uma poesia interior, implantada no objeto, tal como a música das esferas celestes. Pois, originariamente, é a coisa que é poética, só depois o é a palavra” Schelling Aforismos para introdução à filosofia da Natureza.

Esperamos que aqui neste espaço, possamos fazer ótimas composições para que, como crianças diante da vida, consigamos novamente nos reencantar com o mundo. E, como todo processo de descobertas e aprendizagem, por mais que seja árduo, cansativo, doloroso e incômodo, é necessário para que amadureçamos e tenhamos a oportunidade de saber se locomover cada vez melhor no mundo.

A Dança, Henri Matisse

Quando declaramos a afirmação Deus ou Natureza, ganhamos um território infinito de possibilidades de pensamento. A Ecofilosofia vem como mais uma forma de pensar esta grande vastidão que é o mundo. Eco, do grego “oikos”, que quer dizer casa, lar. Ecofilosofar, nada mais seria então que filosofar sobre essa grande casa que partilhamos, sobre essa grande família que somos. Toda família tem seus problemas, mas, enquanto nós, crianças que adoram brincar de Amoeba, estivermos à solta, nossa casa será sempre um lugar de encantamentos e inquietações!

Esperamos que gostem, até breve!

Douglas Alves Barbosa

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