A Cracolândia Também é Sua

Sim, sua, minha, e não importa quão distante estejamos da região de consumo da droga, já não delimitada a uma rua (Helvétia), a um bairro (Centro), a uma cidade ou um estado (São Paulo). O crack pertence a sociedade brasileira e, assim sendo, como produto de nossa geração, precisa ser encarado como um problema nosso e não deles — os cracudos, vagabundos, zumbis ou qualquer outro adjetivo que utilizemos para estereotipá-los.

Ali, entregues ao consumo da droga, estão pessoas de todas as classes sociais, com diferentes histórias e experiências de vida. O vício destrói carreiras profissionais de sucesso, separa amigos e familiares, tira o norte e os parâmetros estabelecidos como corretos, saudáveis e ainda quebra qualquer conceito aceitável do que é ter qualidade de vida.

É a euforia que tira do mundo e faz esquecer de tudo, ainda que em prestações pagas, curtas, irreais e completamente danosas a quem a consome. A dependência se estabelece e é o gatilho para o nascimento de novos homens e mulheres, de crianças e idosos, dispostos a tudo — roubar, matar, morrer e trair a estúpida lei.

Independente da relação que se estabeleça com ele, o crack, de usuários ao mais puro medo e aversão, já entendemos que não adianta fechar as janelas, trancar as casas ou, nesta descabida ação de truculência do governo e da prefeitura de São Paulo, expulsá-los sem amparo, assistência, predisposição a ouvir e oferecer melhores alternativas, além do tratamento médico e social necessário.

O problema se espalha, ganha contornos ainda mais dramáticos, e expõe a nossa incompetência de enxergar que ali estão seres humanos em sua fragilidade máxima, sem absolutamente nada a perder. É fácil exergá-los como perdidos e não pessoas de carne e osso, com problemas, e muito mais fraquezas do que as suas e as minhas. Não pensem que eles, que sucumbiram a um prazer ou a uma fuga momentânea, não tenham consciência e inteligência para entenderem-se no fundo do poço, como escória e lixo, mas sem forças para romper o ciclo e vencer o vício.

Difícil é estender as mãos sem nojo, aproximar sem medo e tentar oferecer um caminho que não seja o da indiferença. A prefeitura e o governo estão certos de tentarem dar uma solução ao problema, mas falharam ao achar que podia ser exatamente como na ação do entorpecente: de forma rápida, eufórica, imediatista, no tudo ou nada. A iniciativa, mais do que deixar as ruas limpas e transitáveis, tem de ser a de salvar vidas, dando a elas uma oportunidade factível de recomeçar com dignidade e com um passo de cada vez.

Por fim, que não nos esqueçamos que a Cracolândia é tão nossa quanto o Parque Ibirapuera, o MASP, a Avenida Paulista, o Corcovado e também os Pampas Gaúchos e a Floresta Amazônica. Tem que cuidar!


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