Capítulo 4 — Comer, Transar, Amar

Capítulo Anterior: 3 — Cheiro de Amor

Ah, o paladar… Que delícia experimentar o sabor da conquista, do desejo, do tesão e do amor. Cada qual ao seu tempo, sem questionar por um instante se querem ou não passar para o próximo estágio. É o que chamam de sintonia! Como não saborear cada parte daquela revolução que começa com um torpor e logo é vontade que não tem mais fim?

Voltamos na primeira vez que saem juntos. Oficialmente juntos, como casal. O primeiro jantar de uma relação. Ela repete propositalmente o vestido de quando se conheceram. Ele nota, elogia e repete o que já disse algumas vezes: ela fica ainda mais gostosa naquela roupa. Que vontade de comê-la ali mesmo, não fossem todas aquelas pessoas…

Eles têm o tempo que precisam para descobrir novas formas de atiçarem suas libidos. A forma como levam os talheres a boca ou o jeito como ela bebe o drink e pouco a pouco é dominada por uma euforia ainda mais sexy. Ah, o álcool e sua libertação… A forma como mastigam, como passam o guardanapo nos lábios… A forma como saboreiam frutas da estação: bananas entrando delicadamente na boca dela… Peras sendo chupadas de forma consistente e firme utilizando levemente dentes e lábios. A mente que vai longe e imagina coisas, a conta que é paga às pressas para que eles cheguem logo ao carro e consumem o ato metaforicamente desenhado minutos atrás.

O tempo passa, nada muda. Notemos agora o sabor com que se deleitam, o gosto que cada glândula salivar capta, à medida que as línguas exploram o corpo um do outro. É um jogo de provocação que parece não ter fim… O gosto meio amargo meio doce meio sem precedentes do perfume, do desodorante, da loção pós-barba (como ela ama aquela loção), do batom, do creme dental. Ela passa a língua nas axilas dele, deixando-o sem ar por alguns instantes. Ela entende o tanto que aquilo o provoca e faz do outro lado. Depois, o gosto dos peitos, do pênis, da vagina de quem se quer, de quem fode bem pra caralho, de quem se ama e não quer que aquilo acabe. O gosto do gozo e de começar tudo de novo. De entender cada vez mais o outro, de conhecer até onde pode chegar e como usar a boca para chegar ao ápice do prazer.

A língua suga, chupa, amortece, fricciona, morde de levinho e a cada nova investida, a loucura, o desejo, a insaciedade de se experimentarem mais, de se quererem mais, de estarem um no outro de tantas formas quanto existirem para completar a lacuna que um é capaz de deixar no outro.

Por fim, o jantar que antecede este texto, na casa dele. Ainda na cozinha, fogo nada brando, dois corpos aquecidos em meio a panelas, pratos e talheres, mas desta vez não partem logo para a ação. Quem tem um pouco mais de vivência e malícia sobre relações sabe o que está acontecendo ali: aquele jogo silencioso de quem prepara o banquete, de deixar o outro com água na boca e apetite de uma fera.

Ele pede que ela experimente o ponto do talharim. Ela obedece, mas daquele jeito gostoso, dona de si como só ela é capaz de fazer e que o enlouquece! Ele pega um pouco para experimentar também e ela, sabendo que aquele jogo já é dela, mete o garfo novamente na espagueteira. Como duas crianças sugam o macarrão que se desenrola até revelar-se um único fio, o início e o fim da mesma história, indo da boca de um para a do outro. A dama e o vagabundo, mais ligados do que nunca, sorriem apaixonados. Mal dá tempo de desligar o fogão: o beijo dele tem gosto dela e o dela carrega ele para o que mais sabem fazer… Os dois se comem ali.

Continuação: Capítulo Final — Toda Luz que Podemos Ver

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 Leia os outros textos da série:

Mão Boba
 Sexo Verbal
 Cheiro de Amor


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