Resistência

É muito claro o quanto estamos meio (ou totalmente!) desorientados e como transtornos mentais deixaram de ser “frescura” para lotar consultórios médicos. Chegamos num momento em que temos que escolher: ou paramos para uma grande terapia coletiva ou vamos todos nos enterrar em um buraco de intolerância, preconceito e conservadorismo.

Primeiro sobre a falta de um norte claro… Já trouxe algumas vezes aqui no blog para a discussão, a minha percepção — e tão somente ela, sem qualquer estudo ou comprovação científica para sustentar meus argumentos — de que embora tenhamos acesso a um mundo de informação, nos acostumamos a interpretar títulos e tirar conclusões incontestáveis com base em uma passada rápida de olho pelos parágrafos de um texto.

O ponto se estabelece sem contra-ponto, a réplica quase nunca se abre à tréplica. Eu falo, mas não escuto; quando percebo algo que vai de encontro as minhas certezas, repercuto sem apuração muito menos reflexão… E assim vou ecoando um mundo de achismos com a arrogância de achar que o outro está sempre errado. Eu me torno um alienado, um ser mimado, isolado em uma bolha de aparências.

Mas engana-se quem acredita que arrogância e força são irmãs. Frágeis, estes mesmos donos da razão tateiam no escuro em busca de uma luz que os norteie e vez ou outra tropeçam feio, caem de cara no chão e frustram-se quando notam estar dentro da roda da interdependência.

E é na fragilidade, que se fecham em seus preconceitos que se tornam intolerantes, que voltam a repetir pontos já superados. Quer um exemplo recente? Qual a justificativa para em 2016, depois de todas as conquistas das mulheres, alguns pais de meninas — justamente aqueles que deveriam lutar por um mundo mais justo e sem diferenciações sexistas — reforcem preconceitos e estereotipem suas crias matriculando-as em uma “escola de princesas” que ensina etiqueta, culinária e organização de casa a partir de 4 anos”?

Acesse o site da franquia (!!!!) “Escola de Princesas” aqui

O passo seguinte da fragilidade não-aparente e da construção deste mundo de preconceitos, intolerância e conservadorismo é perceber-se fincado em terra instável. Bate um vento aqui, o chão treme um pouco ali e o nosso teto de vidro se rompe sem qualquer resistência à tempestade que cai sobre nossas cabeças. Estamos desprotegidos… Os alicerces da estrutura, a tal força que nos sustentava, sucumbem. Perdemos a base, o fio da meada, o poder de reação. Ansiedade, síndrome do pânico, fobias, transtornos de todos os tipos, anorexia, bulimia, esquizofrenia, depressão. Não somos nada, estamos sozinhos, iremos morrer… Para com isso!

O ciclo precisa ser quebrado enquanto é tempo. Vamos ouvir, ler, conversar e estressar ao máximo nossas certezas até que reste apenas um sincero respeito por tudo que conquistamos até aqui. A história nos ensinou a resistir e seguir em frente.