Temer

Sei bem como acontece. Ela — a pessoa — rouba o seu oxigênio e, como se não bastasse, contamina o ar com o gás carbônico que expira de um jeito que só pode ser provocação. Puxa com tanta dificuldade que eu penso, “é agora”, para logo em seguida assoviá-lo deliciando com o que joga para fora bem na nossa cara. Vem como um tapa!

É cheiro de morte, carniça, um boeiro destampado ou qualquer outra coisa certamente em processo adiantado de putrefação. Será que ninguém pode dar um toque?! Avisar, sei lá, que ela — a pessoa — já está morta e só esqueceram de avisar? É enxofre, especulam com um certo sentido.

Também cansa a estrutura corporal disforme, o suor constantemente impregnado no buço, as mãos meladas e escorregadias e os fios de cabelos que caem sem parar. Não me diga que aquilo ali branco são caspas?! Onde ela — a pessoa — vai jogar a unha que está roendo ou a pele que está arrancando dos dedos ressecados? Nervosismo sentido, refletido, não escondido.

Agora está sério ou sorrindo? É sarcasmo, preocupação, ira ou deboche? O rosto desfigurado e uma rouquidão que surge para dominar o discurso. É pacto. Já não dá para saber se é ela — a pessoa, ele — o presidente, ou se são vários deles numa possessão de palavras, expressões, acusações, dedos em riste e, vez ou outra, uma risada descabida de hiena. Vozes inaudíveis, trechos inteiros não captados por gravações. É como se falasse consigo mesmo e com mais alguém, talvez aqueles “demônios” internos inquietos com as últimas notícias que não param de incendiar o país. Medo? Sim, porque passamos a ter algo a Temer… Apocalipse now, o fim do Brasil, a besta entre nós.


Originalmente publicado em douglasfreitas.com.