O elo

Terças-feiras tem tirado o melhor do sono e da paz interior. A lembrança de quando era pequeno, morar com vovó e sentir aviões surgirem como um grande transatlântico atracando nos céus. Corria para o abrigo antibomba mais próximo, que sempre ocorria de ser embaixo da primeira cama que encontrasse no caminho. Cresceu. E os aviões rugem agora num espaço sem coordenada certa, mas que parece adjacente ao peito, onde vibram as notas da saudade da infância e um pouco de fuga da vida adulta. Qual trovão que cruza em ziguezague os céus até chegar certeiro ao solo, as palavras pensadas para aquele dia vinham com grande turbulência e sua sintaxe e sentido pediam um pouso de emergência. Houve o abraço, mas não houve vontade de término naquela despedida. Pousado o adeus, veio uma calmaria estranha. A volta pra casa pareceu incomodamente silenciosa, sem o alarme celestial. Os dias e horas tem uma nova métrica com um que de epopéia. Cada segundo é o ensaio de uma grande saga que espera acontecer. As aves levam e trazem recados aéreos de um e outro lado. E o pôr-do-sol se tornou o selo daqueles dois.