VII. Beleza

Ganhou a batalha mas perdeu a guerra. Ou será que é o contrário? Ele prefere pensar na segunda opção, sem duvida. Mas não sabe dizer ao certo qual das duas de fato seja verdade. Na realidade, pouco importava. Apesar de sua convidada não comparecer ao navio não o impediu de querer novamente desbravar os mares ainda não explorados. Como se a conversa com a nova tivesse despertado mais uma vez algo que ele achou para sempre ter perdido. Ou que pelo menos para sempre estaria depositada na pessoa errada.

Pela primeira vez em pouco mais de um ano pode olhar para o mar e acha-lo belo. Olhar para a conversa com a moça que não apareceu e ser surpreendido por uma linda e suave transição, quase que imperceptível para algo incrivelmente profundo que apenas os mentalmente danificados conseguem fazer. Depois disso, olhou para ela e a achou bela. Era um sentimento maravilhosamente magnífico e triste. Feliz por novamente ver beleza em outras, mas uma pena que durou tão pouco. Talvez da próxima vez ele não deva convidar a mulher bonita para um cruzeiro, mas quem sabe uma caminhada no parque?

Era estranho tudo aquilo. Beleza. Mas afinal de contas, o que é beleza? Pensar ou estudar mais sobre o tema não adicionava beleza ao belo. Se procurarmos nas poesias, músicas e pinturas pela beleza, não a encontraremos dentro delas mas sim por meio delas! Beleza aponta para algo além dela mesma, assim como ele anseia pelo amor que um dia julgou ter.

Ele já não sabia mais no que acreditar. Nos últimos anos suas crenças e valores vinham sendo erodidos pelo cinismo que o rodeava. Mas a beleza o puxava para algo além dele mesmo, como se não tivesse escolha senão acreditar que não podia acreditar no nada.

Ficou a observar a árvore que o protegia do terrível calor que assombrava a cidade. Onde será que a beleza daquela árvore se encontra? Se ela é feita por átomos, todos idênticos e incolores? Se a luz do Sol que rebate na árvore em direção ao seus olhos são apenas vibrações que são transportadas depois por outro impulso até seu cérebro? Ele não sabia dizer. Não existe de fato cor nos átomos que compõem a árvore muito menos nas vibrações que ela reflete:
Formato, coloração e tato são apenas nomes que damos às nossas sensações e não existe estudo no mundo que possa trazer a noção de beleza para aquela árvore.

Decidiu desistir e simplesmente abraçar o Mistério. Quem sabe um dia alguém poderá explora-lo junto com ele. Mas agora, tudo que ele quer é curtir a sombra e se preparar para a próxima viagem.

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