A mulher invisível

No dia 14 de junho de 1979, no hospital Santa Catarina, em São Paulo, nascia com 40 semanas, mais um nenê invisível. Já na maternidade, para não perdê-lo de tão transparente, embalaram o nenê invisível em cor de rosa feito um sonho de valsa e na pulserinha botaram arbitrariamente escrito: “fêmea”.

Dai levaram o nenê invisível pra casa e alimentaram o nenê invisível, e limparam o nenê invisível e ninaram o nenê invisível até ele virar uma criança invisível. Muito tempo depois, os estudiosos dariam a essa espécie de criança a alcunha de “criança viada”, mas até então era apenas uma criança muito estranha, tão estranha que continuava invisível.

Na escola as outras crianças, não por maldade, mas por não vê-la mesmo, passavam por cima da criança invisível, pisavam, chutavam, empurravam, arranhavam, caçoavam da criança invisível. Roubavam seu lanche já que alguém invisível não deve ter fome. E davam-lhe nomes, sem saber que apesar de invisível a criança conseguia ouvir. Na rua, as pessoas paravam a mãe na rua e não entendiam porque ela estava de mão dada com um ser enexistente. É menino, é menina? Não, gente, não liga, é somente a criança invisível.

Os familiares tentavam vestí-la, arrumá-la, com casacos de cores berrantes e toucas e galochas, principalmente para não perder a criança invisível, que tinha esse inconveniente de desaparecer facilmente em meio a multidão normatizada. Mas nada adiantava e a criança continuava invisível.

Nas festinhas a criança invisível nunca saia nas fotos. No tanque de areia, acaba sempre enterrada por engano. Nos estudos do meio, era esquecida na contagem, devido a seu estranho inconveniente transparente. Em shoppings e lojas de departamento e principalmente nos cabelereiros, não se sabia que tipo de roupa, adereço, presente, corte de cabelo oferecer à criança invisível, já que ninguém conseguia enxergar a cor de seus olhos, o tom da sua pele, pra que lado jogava o cabelo. Nem no esconde esconde a criança invisível se dava bem, porque de tão invisível acabavam esquecendo de procurá-la.

Todo mundo queria tirar um pedaço da criança invisível para entender de onde vinham seus poderes mágicos, mas de nada adiantavam as experiências. A cabeça raspada, o corpo cortado, decepado, as unhas arrancadas, todos os testes resultavam inconclusivos.

Na sua festa de 15 anos ninguem tirou a criança invisível pra dançar porque não se via que tinha alguém no canto do salão, esperando para ser amada. Na formatura do colégio ninguém abraçou a adolescente invisível, pois não se sabia exatamente onde ela estava e qual seu estado de espírito. Aos poucos deixaram de convidar a adolescente invisível para as festas de família, para os encontros da escola, para os passeios no parque.

E foi assim, longe dos olhares curiosos de todos aqueles que jamais conseguiram vê-la, que a adolescente invisível experimentou pela primeira vez, junto a outros invisíveis encontrados acidentalmente, o alcool, as drogas, o sexo, o medo, a alegria, a vergonha, o prazer. E invisivelmente cresceu pra dar lugar a mulher invisível. Com todas as suas particularidades e super poderes.

Hoje, a mulher invisível, apesar de não ser vista, usa sua visão além do alcance para ver além dos muros impostos pelo patriarcado na educação, na cultura, no mercado de trabalho, na família. Todos os dias, a mulher invisível, apesar de não ser vista, lança mão de sua super força pra fazer jornada dupla, tripla, quádrupla e ainda aguentar ganhar menos, ser menos valorizada, ser diariamente apontada e ridicularizada, enquanto seus supostos irmãos na invisibilidade e na dor fazem festinhas para a heteronormatividade em busca de aceitação.

Diariamente, a mulher invisível, apesar de não ser vista, luta por uma sociedade onde exista igualdade e liberdade de gênero, de raça, de oportunidades e de acesso a bens, a saberes, a valores, a prazeres, a comunicação, e auto-expressão.

Habitualmente a mulher invisível, apesar de não ser vista, cuida em manter os cabelos sempre curtos, as unhas muito aparadas e o olhar sempre atento, infelizmente pronta pra guerra. Pronta para a agressão despropositada, pro machismo introjetado ou descarado, pro estupro corretivo, para o desmerecimento apenas por não ser igual, apenas por ameaçar com sua diferença e sua coragem o poder estabelecido.

A mulher invisível está pronta para salvar o mundo todos os dias. A super mulher invisível, encarapitada no alto do prédio mais alto, observando suas semelhantes e se estão em perigo. Tomando muito cuidado para não querer pular. Pois apesar de todos os poderes, a mulher invisível ainda não sabe voar.

Like what you read? Give Japa Tratante a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.