Foto #01

Na foto você sorri pra câmera. Atrás de você, a luz estourada que vem da janela impede que vejamos a paisagem e mostra a imperícia ou descuido do fotógrafo, que aliás também não gastou muito tempo no foco ou buscando o melhor enquadramento. Ele estava francamente mais interessado na modelo do que na foto em si.

Fazendo pose, seu indicador quase toca a ponta do boné, desalinhado mais pra perto do olho direito. A cabeça está inclinada para frente de forma que a aba do boné cobre ligeiramente a sobrancelha e uma parte do olho direito, deixando a sobrancelha esquerda naturalmente mais levantada. O cabelo está preso, provavelmente para dentro do boné, como você costumava fazer quando não tinha paciência de lavar a cabeça, de tomar banho, de falar, de ouvir.

A forma como sua cabeça se inclina pra frente cria um excesso de pele em cima do pescoço, uma pequena papada, que eu nunca entendi se é herança de um momento em que você foi mais gorda ou se é simplesmente um aviso de Deus de que sim, assim como os demais seres humanos, você é falível, imperfeita e mortal.

Na lateral direita do rosto, a uma distância igual entre o olho e o comecinho da orelha, pousada na parte mais saliente da bochecha, duas pintinhas, uma maior e outra pequenina, quase imperceptível, criam com o boné e o sorriso, os seis dentes brancos e perfeitos. E os lábios finos e largos. E a sobrancelha arqueada. Essa sensação de que a qualquer momento você vai fazer alguma coisa horrível. E provavelmente deliciosa.

Sempre odiei esse boné e não te conhecia quando essa foto foi tirada, então não sei porque ultimamente quando a sua lembrança me assalta é sempre essa imagem que aparece. Eu não era apaixonada por você nem por essa imagem nem por imagem nenhuma vinda de você ainda. Acho que a gente vai turvando as lembranças reais, as mais intensas, bonitas, tristes, dolorosas, prosaicas, e vai substituindo por tapa buracos físicos mesmo. Registros tecnicamente estéreis mas que demoram mais a dissolver pela sua existência em um plano material, duro, real.

De todas as fotos que eu ainda guardo em segredo, envergonhada de mim mesma por esse culto oculto, esse apego irracional aos espólios de alguém que fez e faz tão mal, talvez essa foto seja a mais fácil de descrever, a mais simples de tirar de dentro de mim. Nesse processo diário de exorcismo, está bem difícil cavar além do que as imagens conseguem revelar. Quase tão difícil como rasgar a primeira fotografia dessa pilha. A primeira de tantas fotos e coisas das quais eu não consigo encontrar meio de me desfazer. Começar é o mais tenso. Mas de alguma forma tenho a esperança sincera de que você ainda faz esse favor de se evadir de mim.

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