Instruções para lidar com o incontrolável

Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso.

Julio Cortázar

Atenção, cuidado! Ele está solto. Armado. Perigoso. De tocaia.

Nada mais horrível, temível, pavoroso, catastrófico. Do que o confronto com o incontrolável. Aquele que dorme debaixo da sua cama. Espreita atrás da porta. Se encolhe para pular sobre você no dobrar de uma esquina ou no abrir de portas do elevador. A ligação imprevista, o encontro casual, a foto desbotada que se joga deslizante de dentro de um livro. Aquela conversa que ia tão bem e de repente… As duas mãos sobre seus olhinhos. Adivinha quem é?

O imponderável não mede forças, não pede passagem ou permissão e ri de nossa impotência frente a sua capacidade de nos tirar o chão, nos deixar pasmos, chocados, sem reação. A visita inesperada de uma situação sem precedentes anula total e completamente a possibilidade de achar jurisprudência frente às novidades que a vida coloca. Não temos como contar com o famoso “igual quando…”, “que nem aquela vez que…”, “agora é só…”. Pois esse tipo vil de arapuca é exatamente aquele momento que não se encaixa em absolutamente nada e acaba com nossa infantil arrogância de que podemos hackear a vida.

Muitas são as instruções plausíveis ao exercício da precaução: levar sempre um guarda-chuva, um agasalho, uma escova de dentes, uma muda de roupa, dez reais a mais. Revisar. Revisar. Revisar 10 vezes antes de mandar. Procurar toda e qualquer dúvida no dicionário. Fazer todas as contas antes, durante e depois. Consultar a previsão do tempo, do trânsito e da bolsa de valores. Mesmo sem nunca ter investido em nada. Cronometrar. Cronometrar. Cronometrar absolutamente tudo. O tempo de casa para o trabalho. Das tarefas ao longo do dia de trabalho. Do trajeto até a copa para pegar café. Do café da manhã, do almoço e da janta. Da trepada boa. E da ruim. Medir a temperatura. Verificar as trancas e as janelas. O seguro do carro, o plano de saúde. O registro do gás. O pulso. A batida do coração.

Se você quer se precaver de todo o risco de um evento fortuito, secretamente escondido no centro de uma maçã madura, no reflexo da poça d’água, no repentino latido adormecido de um cachorro que descansa aos seus pés. Ou na jarra de água que escapa por entre os dedos vacilantes da criança. Então escreva e guarde e faça listas. Faça cópias. Tenha sempre a mão. As chaves, os códigos, os significados. Cuidado ao entrar, mantenha-se a direita e dê preferência.

Mas em hipótese alguma, sob nenhuma circunstância, por mais urgente que seja, jamais me olhe nos olhos como você fez. Jamais me mande mensagens depois das vinte e uma aos domingos. Jamais leia meus textos e de jeito nenhum queira me conhecer de uma forma muito louca. Nunca me empreste nada nem queira que eu deixe algo a seus cuidados. Nunca passe de bicicleta com o rosto virado na direção oposta de minhas precauções. De minhas instruções. De minha educação sentimental que vai totalmente por água abaixo cada vez que você, num impulso, joga sua imprevisibilidade sobre duas rodas fixas em cima de mim. Atravessando meu peito vulnerável. Com seu léxico do espanto.

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