Sim, também fiz previsões para 2016

São previsões para o negócio dos média, especificamente para os média digitais. Vão acontecer em 2016 e vão ocupar gestores, jornalistas e públicos.

Daqui a um ano haverá provavelmente menos jornalismo, mas melhor jornalismo digital. Sim, mais meios vão adotar as notificações para telemóvel. Sim, mais meios vão adotar políticas de conteúdo patrocinado (e isso vai obrigar a clarificações). Sim, mas meios vão tentar limpar as áreas de comentários. Sim, mais meios vão investir em testes A/B para melhorar o produto final, dos títulos às fotos. Sim, vão surgir mais e melhores podcasts e webvideos. Sim, vamos assistir a mais colaboração entre developers, designers e jornalistas.

Mas isto são os detalhes. Passemos às três grandes tendências:

Mais crise e maior consolidação
Pelo menos mais um jornal de referência em Portugal vai fechar — possivelmente dois. Isso vai atirar mais jornalistas para o desemprego, fazer muito boa gente chorar em público pelos riscos para a democracia e pôr mais leitores na rota do digital.
É muito possível que comece já em 2016 a tendência de consolidação dos media em menos grupos, de forma a reduzir custos e exponenciar trunfos. Ainda está por ver se essa consolidação se faz entre títulos/grupos ou por obra e graça das empresas de comunicações, que voltam a valorizar o conteúdo e precisam de ter os produtores debaixo da asa para melhor gerir os ativos.
Certo é que os média continuam a ser um negócio atraente: se não é pelos lucros, que seja pelo charme e pela influência percecionada que os títulos de sucesso arrastam consigo. Isso vai continuar a dinamizar o negócio e a permitir que títulos sem viabilidade permaneçam no mercado.

O stress das plataformas e a crise das homepages
A guerra entre plataformas vai continuar e o Facebook vai também continuar a ganhar. É a plataforma de eleição para os utilizadores e não tem por enquanto concorrente à altura — todos os meios vão correr para publicar notícias em Instant Articles, oferecendo o conteúdo à plataforma em troca de visibilidade e algum (pouco) retorno financeiro.
Mas as plataformas de chat e conversa também vão ganhar mais relevância na estratégia dos média. O público natural das plataformas digitais é a geração millennial e esta ocupa cada vez mais tempo no Snapchat, no Messenger e no WhatsApp. É para lá também que se vão começar a desviar atenções, provavelmente sem grandes resultados práticos. Ao mesmo tempo, o AMP da Google quer facilitar a experiência mobile e por causa disso deverá ser um sucesso junto dos media — e dos leitores também.
Disto tudo decorre que as homepages vão continuar a perder tráfego e relevância. Isso terá de ser combatido com melhor analítica, melhores recomendações e melhor capacidade para antecipar o que é potencialmente viral.

Anúncios bloqueados
O adblock tem tirado o sono a muito editor, mas em Portugal ainda não se tornou perturbador. Vai começar a ser rapidamente — e ainda não é relevante no tráfego mobile, mas falta pouco. Quando mais leitores perceberem que é fácil bloquear anúncios e que a experiência de consumo de média é efetivamente melhor, vão aderir e criar novos problemas às empresas. Isto devia obrigar os responsáveis de média a ser mais seletivos nos anúncios e a valorizar mais a experiência do leitor, algo que ainda é pouco entendido. O que vai acontecer é uma valorização do vídeo (onde é mais difícil bloquear publicidade) e do conteúdo patrocinado, onde o próprio conteúdo é o anúncio. A caminho estão novos problemas éticos e logísticos para redações e departamentos comerciais pouco preparados para estes inconvenientes — até porque a pressão das administrações para ter melhores resultados digitais só vai aumentar.

E agora que já me ocupei das tendências, ficam os meus desejos para 2016. São também três:
- que não se contrate para nenhuma redação nem mais um jornalista apenas com o argumento de que “escreve muito bem”. Já chega de escribas sem mais competências. Há cada vez mais gente que escreve muito bem e que sabe fazer vídeos, que quer fazer podcasts, que deseja investir em interatividade ou trabalhar com bases de dados ou até programar.
- que os jornais levem mais a sério a necessidade de verificar as informações antes de publicar. Que se respeite mais a audiência e não se carregue no botão antes de ter a certeza, só porque a história tem potencial viral ou porque é tão boa que os outros vão dar também. Cada mentira que publicamos representa leitores perdidos e com eles vai o dinheiro que tanta falta faz.
- que os jornalistas percebam que são parte do problema também. Que, em vez de acusarem apenas os leitores e as administrações, que olhem em volta e sejam capazes de assumir que estão obrigados a colaborar na solução da viabilização do trabalho que produzem — e que, como são parte do problema, devem também ser parte da solução.

Era bom, era. Mas não vai acontecer.

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