draaude.
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Sep 7, 2018 · 2 min read

“christine, te amo”.

assisti ao fantasma da ópera pela quinta vez. isso, só contando as vezes que o experienciei nos palcos, pois se somasse às vezes que o vi em noites solitárias em casa e em pequenas cenas que se repetiram no meu cotidiano, o número não caberia na mesma linha.

redundante mencionar que chorei. me debulhei em lágrimas silenciosas acompanhadas de um sorriso contorcido com um misto de dor e prazer, expressão aperfeiçoada por tantas vezes de repetição. elas vem sempre na mesma parte. antepenúltimo verso da peça.

no entanto, essa vez se destacou das outras. sim, eu chorei feito um bebê desolado, mas por motivos completamente diferentes. pego-me pensando se foi por causa da performance distinta dos atores ou por causa do fenômeno mencionado anteriormente: o fato de eu já ter assistido pequenas cenas da obra ocorrerem bem debaixo do meu nariz.

antes, meu coraçãozinho se despedaçava ao ouvir a confissão dolorida de erik, o homem mascarado, disforme e despedaçado pela rejeição de sua bela musa. agora, choro pois não conseguia mais ver erik. só via o fantasma, monstro sanguinário que apenas delirava uma loucura advinda de tantos anos de isolamento e martírio pela arte. chorava por raoul, moço que tanto condenei, que tentava salvar a mulher -não musa- que amava.

percebo então a genialidade da obra que já admirava antes. por um segundo, somos todos christines. estamos sob o efeito hipnotizante do fantasma, que nos encanta com sua voz macia e sedutora e nos cativa com seu dolorido passado-presente. não entendemos porque a tonta menina rejeitou tão veementemente os sentimentos daquele homem atencioso e apaixonado.

quatro sessões depois, vejo que a dita paixão era um sentimento tão vazio quanto a vaidade do fantasma e a insegurança de erik, que precisava de uma moça para colocar-se na posição de mestre – papel que bem desempenhou- para preencher todo o vazio que sua deformidade deixou em sua vida. sinto raiva, ódio e asco tudo ao mesmo tempo, ao ver o personagem que tanto amei despedaçando-se na minha frente. a persona estava afogada nas lágrimas que eu despejava bem na primeira fila. pela primeira vez vi uma pessoa. por ser tão raso, erik-fantasma foi meu grande eureca de saber como é ser humano. ele é uma pessoa. assim como nós. eca.

e quem sabe assim alguém pode se apaixonar?

7.09.2018

point of no return – phantom of the opera

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    nada e mais um pouco

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