O Sonambulo

A rua parece estreitar no decorrer do dia. Operários edificam muros, limpam galpões e procuram por vazamentos. Saúdo os rostos estranhos, mas eles nunca devolvem o sorriso. A indiferença é reciproca. Subo a extensão mais íngreme da região. Joy Division — Unknow Pleasures. Ela me disse há duas horas para esperar em frente da loja de perfumes às 16:00. Estou andando em círculos desde às 10:00. Dei uma volta completa pela cidade. Dei uma volta completa pelo mundo. Esperei mil anos. O tumor atrás do meu olho direito provoca cefaleia. Baixa oxigenação no sangue. Cigarro italiano. Marijuana. A experiência é subjetiva. Síndrome do pânico. Suor. Às 19:00 não havia matéria a minha espera. Nunca houve. Quem é ela? Qual é o objeto da espera? Minha face treme e então só resta a paralisia. Cada noite é um fragmento remendado numa realidade onírica, mas jamais toma forma congruente em uma história com sentido quando relembro meus passos errantes. Durmo enquanto escrevo segredos do coração dentro de um buraco na rua, invariavelmente. Há um espaço entre minha têmpora e o cano de um revolver. Neste espaço cabe a decisão de acordar ou permanecer errante. Alguém sempre dispara e a cefaleia some. Acordo vivo e tomo conhecimento de que a mulher a minha espera em frente a loja de perfume nunca existiu.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.