asas grandes, gaiolas pequenas

a primeira vez que eu lembro de quase ter voado, eu tinha acabado de chegar em outra cidade. estava em pânico com todas as mudanças, não reconhecia minha casa, não conhecia ninguém, entrei de gaiata numa escola toda cimentada que já tava um mês de aulas a frente de mim.

com oito anos, uma criança em mudança mais atrapalha do que ajuda. mamãe, vendo a cena de uma criança desconsolada em meio a dezenas de caixas que não poderia nem ajudar a carregar, desceu o prédio comigo, chamou as crianças todas e falou “essa aqui é a andressa, ela é minha filha, a gente chegou na cidade agora. BRINQUEM COM ELA.”

que tipo de autoridade minha mãe teria com aquele monte de pirralhos correndo pelas escadas do prédio é um mistério que eu jamais desvendei. ela deve ter falado realmente grosso ali naquela hora. eu tava paralisada, morrendo de vergonha. durou uns 34 segundos. passou.

acho que essa foi a primeira vez que alguém abriu a gaiola pra mim.


nos anos seguintes eu comecei a viajar, todas as férias, pra casa dos meus parentes. eram casas conhecidas, caras repetidas, mas eu achava o cúmulo da emoção pegar um avião como uma menor desacompanhada. grandes tempos, comidas maneiras, talheres de metal.

se tinha uma coisa que eu manjava era como andar entre as salas e os corredores da finada transbrasil, usando uma bela coleira avisando que eu era aquilo mesmo: uma criança sem os pais. se hoje as empresas perdem as crianças, nessa época eu era adotada por umas 15 pessoas diferentes em menos de 4 horas. supercool.


depois dos 15 ou 16, eu comecei a ir e vir de outros lugares, já sozinha. pegava ônibus interestadual e visitava parentes, amigos de parentes, amigos, amigos de amigos, amigos que eu nem conhecia. era só alguém abrir um sofá cama e eu já tava me esticando. visitei várias cidades, gastei bem pouco dinheiro, conheci muita gente.

nessa época eu descobri que minhas asas iam um pouco mais além.


mas ainda tinha um upgrade a se fazer. eu tinha que começar a sair do país também. não sair do país pra ir comprar adesivo em ciudad del este ou alfajor em puerto iguazu, tinha que ir longe.

a primeira vez que meu pai foi pra europa, ele fez uma viagem enorme, com um monte de outros caras. suíça, alemanha, altas fitas. ele trouxe tanta foto que eu não tive nem saco de ver tudo (desculpa, pai). depois disso ele e minha mãe foram em uma outra oportunidade. acompanhei mais uma vez e ganhei uma mala de presentes. ainda não tava bom.

foi assim que um dia minha mãe disse “vai lá passar uns meses com a sua tia”. e eu fui. meu espanhol era maravilhoso, eu conseguia contar até dez e falar uns três pronomes.

nessa oportunidade eu acabei utilizando aquele método seu sofá minha casa pela primeira vez em outro continente. estive em madrid, onde me perdi todo santo dia. estive na itália, onde perdi um passaporte, passei frio, engordei uns 5kgs e passei raiva. estive na suíça, onde tive uma vida de semi-rica que jamais se repetiu. estiva na frança, por pequenos períodos de tempo, andando pelas montanhas, onde conheci o poder devastador de uma bolacha vencida.

daí pra frente, minha vida foi contar dinheiro, contar dias, convencer pessoas e comprar passagens. toda a minha organização financeira de onze meses é focada em guardar dinheiro para o um mês em que o vôo vai longe. e isso dá um trabalho desgraçado.


_você vai embora?
_vou.
_por que você vai embora?
_porque tenho asas e o mundo é grande demais pra eu viver numa gaiola tão pequena.

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