Como surge um vilão? Sobre Victor Luis, desproporções e marcas

Durante a dura semana da eliminação alvinegra para o rival Flamengo, em meio a provocações, reclamações de arbitragem, caso de injúria racial (abafado pelas comemorações da classificação e digno de uma singela notinha em um jornal), uma figura ficou marcada pelos torcedores do Botafogo: Victor Luis.
O lance em que o lateral esquerdo é driblado por Berrío, originando o gol que cravou o Flamengo nas finais da Copa do Brasil, gerou uma revolta generalizada nos botafoguenses, culminando em um bombardeio de xingamentos ao jogador nas redes sociais.
Mesmo tendo tido, na maior parte do jogo, uma atuação segura (diferentemente do colega Luis Ricardo, fragilizado nos ataques rubro-negros pelo lado direito), Victor Luis foi amargamente taxado pelos alvinegros como o grande vilão de mais uma eliminação doída para o rival.
Nota-se, claramente, que as críticas direcionadas a ele são criminosas na mesma medida da falta de Cuellar em Matheus Fernandes. Não, não estou minimizando o erro dele e nem tirando a ligação direta deste com a derrota. É uma simples questão de contextualização.
O fato é real. A jogada existiu, da forma que todos nós assistimos. Repercutiu, no entanto, a níveis catastróficos. Compreensível, visto que foi o principal acontecimento da partida. Mas afetou a visão dos alvinegros de forma a esquecerem de outros fatores que levaram ao fatídico fim da busca ao título. Fez com deixassem de enxergar o coletivo ruim do jogo, e que a ferramenta mais crucial do Botafogo na temporada, os contra-ataques, foram um fracasso. O meio campo, apagado. As substituições, pelo elenco limitado, não surtiram efeito. E todas levaram ao resultado final.
O problema, no caso, é que a visão do botafoguense do fato foi distorcida. E levou ao esquecimento de que Victor Luis, durante 99% do jogo, ANULOU Berrío. O lateral foi uma das maiores conquistas do time de Jair Ventura em 2016. Sua estadia no ano seguinte foi celebrada pela equipe. E tem sido bastante regular, sempre incisivo nas intervenções e tendo uma boa perfomance equilibrada defensiva e ofensivamente. Não há dúvidas, pelo menos pra mim, que ele seja um dos melhores atuando no Brasil no momento.
Entretanto, confrontei-me com comentários dizendo que, mesmo sendo uma peça importante na equipe, ele ficou marcado.
Marcado. É interessante observar esse fenômeno dentro do futebol. O jogador que, independentemente de ser bom ou ruim, da contribuição que traz para o equipe, da sua história com clube, ou até mesmo da sua real atuação por um jogo, é marcado por algo isolado.
A título de exemplo, Marc Bartra, ex zagueiro do Barcelona e atual jogador do Borussia Dortmund. Bartra era uma cria das canteras do clube catalão, subiu ao profissional como promessa. Porém, uma corridinha de Bale o deixou pra trás e marcou o jovem defensor durante toda a sua passagem pelo Barça. Naturalmente, a suas perfomances seguintes não convenceram a torcida e a diretoria, e ele foi vendido pro Dortmund, onde atualmente é elogiado pelos adeptos do time alemão.
O próprio Jair Ventura, durante a discussão envolvendo a titularidade de Igor Rabello versus a de Emerson Silva, muito criticado pelos botafoguenses durante a sua passagem, fez menção a questão da supervalorização de erros em uma coletiva de imprensa depois do empate contra o Atlético-MG no Brasileirão:
“A volta do Emerson Silva foi no jogo contra o Atlético-MG lá, ele saiu por conta de contusão. O Emerson jogou lá (pelo Atlético), conhece o Fred, optamos pela experiência. Depende do que eu quero do jogador. Nada impede que o Emerson Santos, o Igor Rabello, o Marcelo voltem a jogar. Não tem nada definido, estamos sempre reavaliando. O gostoso de ser treinador é que você faz o que acha melhor, não pelo que a opinião pública está falando. Você não brinca de Cartola. Realmente, o Emerson não fez um bom jogo. Ninguém é intocável. O Igor teve algumas falhas também, duas ali contra o Vasco, assim como o Emerson já teve falhas.”
Não estou querendo, aqui, retomar essa discussão, até porque já foi superada e eu mesma discordava da preferência pelo Emerson Silva baseada apenas na experiência. O ponto interessante que foi abordado por Jair, e que foi distorcido por muitos torcedores (que enxergaram isso como se o técnico estivesse “crucificando” Rabello para justificar a escolha pelo mais velho) é o de ele não se orienta por falhas.
A visão que Jair tem sobre cada um de seus jogadores é dinâmica. Ele pondera os aspectos de cada um baseando-se na técnica, características, adaptação no esquema e as dificuldades postas por cada adversário. As falhas, acontecem, mas a visão dele não fica presa a elas. Ele enxerga o fato, e não as suas repercussões externas.
A questão é: não importa se a mídia, os rivais, e os espectadores de fora enxergaram o Victor Luis como o grande culpado. É natural, visto o lance ficou em evidência. Mas o torcedor alvinegro, que acompanha a trajetória do lateral, o conhece, assiste as suas partidas, sabe da qualidade do jogador, e viu sua boa atuação na maior parte do jogo, não pode vestir os óculos dos público geral. A visão do botafoguense tem que ser diferente.
O fato existe, Victor Luis falhou. Mas quem transforma ele em vilão somos nós. No nosso consciente, se deixarmos nos levar pelos comentários, notícias e piadas, vamos passar a acreditar que ele realmente é o mal. E bloquearemos qualquer boa memória que temos dele vestindo a camisa do Botafogo.
O que o Botafogo necessita agora, mais do que tudo, é unidade e união. Foram as duas ferramentas importantíssimas para que pudéssemos ultrapassar os obstáculos esse ano: adversários difíceis, calendário sobrecarregado, poucos recursos, peças limitadas. Não estraguem isso agora.
Que Nilton Santos esteja conosco.
