Ensaio sobre a ansiedade

Felipe, em Outubro de 2013

Rio de Janeiro, 14 de Outubro de 2016. 11:19 p.m.

Felipe foi um dos melhores amigos que eu poderia ter tido, numa época muito difícil da minha vida. No início de 2004 meu mundo parecia estar desmoronando, todo de uma só vez: eu tinha tentado me matar no finalzinho de 2003, era abusada serialmente (falei sobre isso aqui), estava muito gorda (ainda sou, mas na época não estar no padrão era motivo de profunda dor) e fui obrigada a começar o ensino médio em uma nova escola, porque tinha sido reprovada em Matemática na série anterior e no Bahiense não era possível fazer dependência. Enfim, tudo errado, tudo torto e sem jeito, mas logo no meu primeiro dia de aula no Alfa CEM ele sentou na minha frente e desde então não nos desgrudamos mais. Acordar de manhã cedo naquela época era um verdadeiro suplício pra mim, mas saber que ele estaria lá para eu bagunçar o seu cabelo e jogarmos batalha naval durante as aulas que nos entediavam tornava tudo mais leve, menos insuportável. Fazíamos trabalhos de grupo juntos, ele me ajudava nas disciplinas exatas e eu dava força pra ele nas matérias de humanas, eu o dirigi no teatro da escola em que ele foi o icônico Dom Casmurro, passamos vários intervalos e horas depois da saída rindo, chorando, trocando, aprendendo um com o outro e quando nos formamos não perdemos o contato e nem deixamos de nos adorar. O laço criado foi forte o bastante pra resistir a distância e às transformações das nossas rotinas, então eu sabia que ele estaria lá pra mim, assim como acredito que ele sabia que eu estaria lá pra ele se preciso fosse.

Uma década se passou e inesperadamente ele veio a falecer, um dia depois da final da Copa do Mundo, no Brasil. Quando me contaram eu não conseguia acreditar, porque simplesmente não fazia sentido. Felipe tinha 26 anos, a mesma idade que eu tenho hoje e em tanto tempo de amizade eu jamais o tinha visto sequer resfriado. Não dava para entender como ele não estava mais aqui, depois de passar a noite anterior a sua morte comentando animadamente no Facebook os lances da partida da Alemanha contra a Argentina. Não dava para conceber que a saída que volta e meia nos prometíamos marcar no final das contas não rolaria. Não dava para acreditar que ele não era mais parte do meu presente, que a partir daquele momento seria ao meu passado que ele pertenceria.

Sua morte me afetou de muitas formas, mas talvez a mais significativa tenha sido no meu modo de encarar as minhas próprias conquistas e expectativas a respeito do futuro. De repente nada do que eu tinha até então era suficiente e era imperioso que eu conseguisse mais, que eu me provasse e que eu provasse a todos ao meu redor que eu merecia continuar viva, que eu era produtiva, que eu estava sendo útil, que eu fazia alguma diferença para o mundo existindo. O passar do tempo começou a me assustar como nunca antes e eu me vi temendo a mediocridade eterna, temendo uma vida que um dia eu não enxergasse como aquela que valia a pena ter sido vivida.

Não demorou para que eu me sentisse um fracasso completo, como suspeito que a maioria das pessoas da minha geração se sente agora. Eu não tinha o sucesso desejado, não tinha o emprego sonhado, não tinha o número de diplomas adequado, não era popular o bastante e na maior parte do tempo nem tinha certeza do que queria ser ou fazer com minha vida (e quando tinha não sabia como chegar lá). Eu não estava fazendo nada realmente valioso para justificar a oportunidade de existência que me tinha sido ofertada desde o nascimento, o que obviamente me tornava uma completa zero a esquerda, pelo menos na minha cabeça.

Ansiedade, senhoras e senhores. Ansiedade purinha, na sua pior faceta, em toda a sua essência, motivada por um luto que eu não quis encarar (de maneira literal inclusive, já que eu não tive coragem de ir ao enterro do Felipe) e não soube lidar no momento devido. Ansiedade que assumiu a forma de uma corrente que eu fui arrastando até levar essa questão para a terapia, até eu digerir toda essa situação e ter o insight que me fez escrever esse texto. Ansiedade que me cutuca e eu sei que também te cutuca o tempo inteiro, te pedindo resultados, te arguindo a respeito de feitos e do legado que você vai deixar (ou não vai?). Ansiedade que quase nunca nos permite sentir uma satisfação plena com o que temos, que não nos deixa confortáveis na nossa própria pele. Ansiedade que nos faz acreditar que não estamos realizados em nada, e que talvez a gente jamais se realize em coisa alguma.

Em “The Fault in Our Star” Hazel Grace e Augustus Waters se apaixonam, mas como você e qualquer um que habitou esse planeta nos últimos cinco anos devem saber há algo de muito peculiar na relação dos dois: ela sofre com um câncer incurável e pode morrer a qualquer momento. Ele teve câncer, mas está em processo de remissão, o que o faz encarar a vida com muito mais otimismo do que a sua amada é capaz.

“The Fault in Our Stars”, 2014

Até que o jogo começa a virar, e aí vem um SPOILER GRANDE E CABELUDO para aqueles que não leram o livro ou viram o filme: o câncer dele volta e se espalha por seu corpo rapidamente, matando-o antes da sua namorada, o que não era imaginado por ninguém. É ela quem o acompanha nos seus últimos dias e num deles Gus demonstra toda a sua revolta por estar morrendo tão cedo, dizendo que ele acreditava que seria especial, que quando ele partisse não faltariam jornais publicando seu obituário, provando sua indiscutível relevância para os rumos da humanidade.

Hazel se incomoda com esse pensamento e hoje ele também me soa muito triste, injusto até. Afinal, se o mundo todo não conheceu e amou o Gus ele ao menos foi conhecido por ela, por sua família e amigos. Por que isso sempre parece tão pouco? Por que não pode ser o suficiente para nós todos?

Eu não vou ser hipócrita e dizer que não anseio pela fama e pelo aplauso naquilo que acredito ser boa e fazer bem, que é escrever. Fico feliz demais com cada ❤ recebido aqui, com cada comentário deixado por vocês nos meus textos. Continuo tendo medo de morrer “do nada” e não lançar pelo menos um livro, um roteiro de série/filme ou uma novela, que são meus maiores desejos no âmbito profissional. Sigo achando terrível a ideia de não ter tempo hábil nessa vida para produzir algo que me deixe marcada na história da literatura, da televisão ou do cinema. Ainda temo não experimentar ou conhecer tudo aquilo que me causa interesse, que me dá um friozinho na barriga e vontade de planejar. Aliás, a perspectiva de perder aqueles com quem eu tenho sonhado e construído junto também me apavora, e muito!

É claro que nenhum desses sentimentos e preocupações desapareceram como num passe de mágica em meio ao processo terapêutico, então o que mudou? Bem, eu passei (ou passei a tentar) valorizar o que tenho hoje e, principalmente, o fato de existir e estar viva agora. Isso é muito, para começar. Sem querer ser nerd demais, mas já sendo (sorry, not sorry) se possível assista a esse discurso do Dr. Manhattan a respeito de milagres, em “Watchmen”. Às vezes a gente esquece o quanto vários eventos e pessoas tiveram que convergir para que tivéssemos a chance de estarmos vivos nesse universo, e essa é mais uma reflexão que a partida prematura do Felipe acabou me proporcionando.

Dr. Manhattan, “Watchmen”, 2009

Além disso, se eu foco apenas no que ainda não fiz ou no que ainda não tenho estou ignorando tudo que já fiz e que já tenho, e isso inclui gente muito maravilhosa com quem eu troco e aprendo, ou com quem já troquei e aprendi, como o próprio Felipe. É claro que enquanto seres humanos vamos sempre querer mais e sempre vamos querer o melhor, mas se eu fico incomodada (e consequentemente paralisada) por tudo que ainda não sou indiretamente não estou dando o reconhecimento devido a quem já fui, e também não estou reconhecendo àqueles que me ajudaram a ser alguém nesses momentos específicos.

Felipe não viveu os mais de 70 anos que a expectativa de vida do brasileiro médio indicava que ele poderia viver, mas nos 26 que esteve aqui foi até onde sei um excelente amigo, irmão, namorado e filho. Conseguiu tocar o coração e a mente de muitos sendo um incrível professor de Inglês, idioma que ele não só não dominava quando o conheci como também era péssimo aluno nos tempos de escola. É muito provável que ele não tenha tido tempo para realizar tudo aquilo que sonhou e planejou, mas enquanto esteve aqui fez coisas maravilhosas e deixou uma marca muito positiva em quase todo mundo que eu conheço. Eu, pelo menos, sempre que penso em alguém carinhoso, ponderado, inteligente, curioso e bem humorado tenho ele como exemplo. Sempre que penso em Harry Potter, futebol, matemática, astronomia, teatro e até da Apple lembro dele e sinto muita saudade, mas também fico estranhamente feliz, porque apesar da falta que hoje sinto ao menos tivemos a chance de nos encontrar nesse mundo, dentro de todas as improbabilidades disso ter acontecido.

Seu legado está aí, palpável e sendo passado a diante por aqueles que ele amou e que também o amaram. Nada se perdeu por completo com a sua morte, porque a sua vida segue reverberando nas nossas. A existência dele me ajudou a resistir em horas de grande provação e me ajuda agora a construir a minha. Sim, ele não está mais presente fisicamente, mas e daí? Tudo que ele foi, tudo que ele deixou vale tanto... E vale porque eu valho, assim como todos que o quiseram bem, e que ele quis bem enquanto esteve entre nós.

O que nos torna únicos hoje e para a eternidade são os laços que criamos enquanto o nosso coração pulsa, enquanto nos é permitido respirar. Não são os prêmios conquistados, a quantidade de filhos tidos ou cifras milionárias na conta bancária. A arte tem por princípio permitir que nos reconheçamos e que nos conectemos, uns aos outros. Acredito que seja esse o seu princípio porque para mim é isso que dá um sentido verdadeiro a nossa existência nesse planeta. É isso que faz (e que tem feito) tudo valer a pena!


Se essas palavras de alguma forma te tocaram que tal fazer o (meu) ❤ pulsar?