Para a adolescente que eu fui, um adeus

O bilhetinho-convite

Rio de Janeiro, 25 de Setembro de 2016. 05:14 p.m.

Nesse bilhetinho se vê um convite da minha terapeuta para que eu te escrevesse logo. Ele me foi dado há umas duas semanas e estava guardado na minha maletinha de bijuterias, sempre me lembrando desse combinado ainda não cumprido quando eu a abria para encontrar uma pulseira ou guardar um colar. A verdade é que se não entrei em contato antes não foi por mal, mas é que muita coisa vem (me) acontecendo desde então. Devo dizer que também não faltou vontade de lhe falar, mas sobrou medo. Eu sabia que te reencontrar seria uma das coisas mais difíceis que eu teria que fazer na vida e aqui dentro me questionava se teria ou não teria forças. Hoje eu sei que tenho!

Muito provavelmente em 2003

Essa da esquerda é você, com seus 13, 14 anos. Eu sei que você acha que essas roupas são para mostrar para o mundo o seu estilo, mas deixa eu ser muito franca contigo: elas foram escolhidas a dedo para te esconder, para te resguardar. Servem para te proteger, não para te identificar. Com elas você parece um menino e várias vezes vão te confundir com um. Duas dessas ocasiões você jamais vai esquecer: uma se dará em uma sapataria do Barra Shopping, quando você estiver comprando um tênis com seus pais. A outra será no ponto de ônibus que fica na calçada da sua escola, ao lado de uma de suas melhores amigas, a Gabi (que é uma das minhas melhores amigas também). Você não vai apagar essas memórias porque os sentimentos ativados quando essas situações se derem serão pesados demais para se entender ou digerir facilmente. Ao mesmo tempo que você se sentirá humilhada por não ser reconhecida como alguém do seu gênero você se sentirá estranhamente confortável, porque de alguma forma estará atingindo seu objetivo. Sim, eu sei que você desconfia que nasceu no corpo errado, que é um garoto. Isso é consequência do abuso que você está vivendo há alguns anos, não corresponde à realidade, pode acreditar. Além disso, essas blusas largas de bandas e essas calças de elástico disfarçam dois fatos que você a essa altura quer demais esconder: 1. Que você é gorda, e isso não é motivo de vergonha, nem algo que te torne feia, mas vai demorar muito para que aceite isso numa boa e 2. Que tem curvas de mulher debaixo de tanto pano. Se em casa você já é estuprada quase que diariamente é melhor que não seja fora dela também, né?

Primeiro aniversário, em Novembro de 1990

Aliás, não é normal o seu irmão cinco anos mais velho fazer as coisas que faz com você e no fundo, no fundo você tem total ciência disso. Se não, não precisaria ser escondido. Se não, não seria tão desconfortável. Não estou falando somente da condenação social ao incesto, mas principalmente da sua ausência de autonomia nessa história. Você não sabe quando tudo isso começou com certeza, mas você sabe que era muito novinha. Talvez tivesse seis anos, talvez um pouco mais. No início de tudo você não tinha capacidade de decidir e agora é tudo automatizado, mas eu sei que você não se sente bem de verdade nessa posição. É tudo tão esquisito, né? Não há prazer, porque isso parece que só ele pode sentir. Ainda assim você tenta estar ok com tudo isso, mas não é porque esteja de fato ok… É porque você acredita que não vai parar tão cedo, ou tão fácil. Você já falou, já pediu ajuda. Não te escutaram, não compreenderam. A omissão seguirá por muito tempo ainda e vai inclusive me alcançar. É a forma que eles conseguem lidar com tudo isso e se nesse instante você precisa dessa mão confie em mim quando te digo que amanhã ela não será mais necessária. Outras virão e você aprenderá como se cuidar, como se acolher.

Não demora tanto para você conseguir dar um basta, mas não será com o rompimento devido. Será tudo muito estranho. Ele vai tentar te convencer que não tem nada demais em te tocar, em te usar. Você não quer mais (VOCÊ NUNCA QUIS), seu nojo e repulsa a respeito dessa situação (e a respeito de si mesma) estarão no limite, seu temor de que o pior aconteça (já quase aconteceu: mais de uma vez você precisou tomar pílulas do dia seguinte) só cresce e é melhor conviver com a frustração do seu irmão e com um clima bizarro entre vocês do que seguir com aquelas práticas. Essa sensação incômoda que se instaura quando vocês estão juntos vai seguir presente e creio, sinceramente, que ela nunca vai embora. A boa notícia é que vocês conviverão cada vez menos e um dia você não sentirá mais culpa pelo que ele escolheu fazer com a própria existência, nem lamentará mais o amigo perdido. Você sentirá muita raiva às vezes, por tudo que de alguma forma não pode experimentar e por tudo que experimentou e não devia, mas na maior parte do tempo o sentimento é de pena. A eterna dúvida sobre como tudo poderia ter sido se nada disso tivesse acontecido continuará existindo, mas você sabe que a sua resistência diante de uma realidade tão opressora é mais motivo de orgulho do que de lágrimas. Além disso, você tem consciência (e eu também tenho) que mesmo ele tentando te tirar tudo você segue lutando, existindo e é ele quem continua sendo um nada, e tendo quase nada para chamar de vida.

Aniversário do irmão, em Junho de 1991

Aos 17 você vai começar a cursar Relações Internacionais, depois Direito e até vai fazer um período de Pedagogia e História. Agora eu estou terminando Marketing. No fundo todas essas faculdades vão te colocar de volta no caminho do qual você nunca deveria ter saído: a escrita. Você nasceu para ela, como acredita desde os seus seis anos de idade. O bom disso tudo é que entrar na universidade começa a te dar autonomia e as coisas aos poucos vão melhorando. Você gosta daquilo que estuda e aproveita de verdade seus amigos (vai aproveitar mais, mais para frente). Outro ponto de virada é que com o falecimento do seu avô devido a um aneurisma em 2007 seus pais te levarão a uma endócrino, com medo que os problemas de saúde da família acabem em algum momento te afetando pelo excesso de peso. Vão-se 30 quilos embora (mas você segue gorda, só menos pesada) e vem a superfície aos pouquinhos algumas centelhas de vaidade, da personalidade que em parte se constrói, parte sempre esteve aí, mas sendo oprimida. Tudo ainda muito tímido, sutil, mas a mulher que vivia dentro de ti enterrada sob os próprios traumas vai começar a dar o ar da graça, desejando finalmente florescer! Sim, é assustador exercer tanta feminilidade de uma hora para outra, empoderamento é um negócio que a primeira vista apavora , mas quer saber? A senhorita fez muito bem em dar o pontapé inicial nessa revolução interna! Somos lindas demais para ficarmos nos escondendo nas sombras, como se fôssemos motivo de vergonha ou de repulsa. Não, não e não! Você nasceu para brilhar e eu também, gata!

Julho de 2016

Em 2008 a sua paixão por futebol vai aumentar exponencialmente quando o Fluminense disputar a Libertadores (SPOILER ALERT: perderemos a final nos pênaltis, mas será um jogo recheado de lições de vida, então você vai sofrer, mas vão ficar memórias boas disso, meio que um 😭 com ❤☺💚 no fim)! Um ano depois quase cairemos para a série B e em 2010, voilá, conquistaremos o terceiro Brasileirão! Pois é, tudo assim meio atabalhoado, cheio de altos e baixos, como você mesma é (vamos combinar: nenhum time combinaria melhor nesse sentido contigo)! Em um dos jogos de uma dessas várias campanhas você tirará uma foto vestida com uma camisa grená que ganhará do seu pai e que hoje está carinhosa e cuidadosamente guardada em uma das minhas gavetas. Essa foto vai mudar a sua vida por completo! É sério!

“A foto”

“Como?”, você deve estar agora se perguntando e eu te respondo: daqui a pouco você vai se cadastrar em uma rede social chamada Livemocha, que tem por fim fazer com que pessoas com conhecimentos de idiomas distintos troquem experiências e falem com os nativos de outras línguas. Você vai entrar nele para aprender tudo, menos Espanhol, até porque seu interesse nessa matéria é zero, mas um certo argentino vai começar a tentar conversar contigo através do chat desse site insistentemente. Toda vez que ele chama você recusa o convite para papear, porque afinal de contas ele parece ser mesmo argentino e 😝! Por alguma razão ele vai seguir tentando (e ao que quer que o tenha mantido tão firme na empreitada apenas uma palavra: OBRIGADA!) e um dia vai te mandar uma mensagem falando que é torcedor do Vélez Sarsfield, time portenho que tem uma certa amizade com o seu Fluminense. “Queria muito conhecer uma tricolor carioca” e vai colocar o MSN dele lá (Aviso: o MSN já era! Agora a onda é Messenger do Facebook e WhatsApp, mas relaxa que em breve aprenderá mais sobre) antes de se despedir, deixando no ar a possibilidade de que você o adicione. Na madrugada do dia 16 de Outubro de 2010 para o dia 17 vocês conversarão pela primeira vez e quando se despedirem para dormir você ouvirá “Andvari”, do Sigur Rós (é, você segue gostando de umas coisas meio conceituais, meio diferentonas) sabendo que já está apaixonada, ainda que isso pareça absurdo (e é um pouco, convenhamos). O mesmo vai rolar com ele, mas sem Andvari. Não é por acaso que “17.10.2010" está tatuada no meu pulso esquerdo. É o primeiro dia que você acordou tendo a pessoa que ajudou a transformar seu destino junto contigo, e isso precisava ser marcado de alguma forma, certo?

Dezembro de 2012, na última visita do Jon antes de se mudar de vez, em Junho de 2013

Não será simples e nem indolor. Vai ter muita sofrência, muita ralação para vocês viverem plenamente esse amor, mas vocês vão, pode crer! Depois que ele aparecer a sua vontade de se machucar vai diminuir muito, assim como o seu desejo de partir desse mundo, que você só parou de tentar porque cansou de falhar no meio do caminho. Ele vai te dar propósito, motivo para continuar! Eu sei que isso soa super clichê, mas a história de vocês é bastante, daquelas que todo mundo suspira quando se conta e, principalmente, daquelas que você achava que jamais teria o privilégio (e o direito) de ser protagonista. Vai ser ele que na cara dura vai te perguntar se você já foi abusada e você pela primeira vez em muito tempo poderá se abrir a respeito com alguém, tendo coragem de mais uma vez pedir socorro (e dessa ser atendida). Vai ser ele que vai segurar do seu lado a barra que será enfrentar todo mundo e tornar isso público para a família e para os amigos, com as consequências nefastas que virão e com os bons sentimentos que aos poucos aparecerão e que você vai aprendendendo a reconhecer, como eu também aprendi. Vai ser ele que largará tudo e mudará de país por vocês, para você! Será por ele que você cederá aos apelos e fará terapia! Depois ele recomeçará o tratamento dele também e apoiando um ao outro os dois vão lidando com as limitações que cada um tem e atravessando os obstáculos, encarando as dores e as dificuldades com coragem e devagar vão descobrindo como ser um casal harmonioso, funcional. Feliz! Vai ter muito dia complicado, vai rolar muita bad e decepção, mas vocês nunca desistem um do outro. Talvez por destino, talvez por teimosia, mas provavelmente porque aos trancos e barrancos foram descobrindo que são muito melhores juntos do que separados, no final das contas!

Setembro de 2016, no Parque Olímpico

Imagino que seja inusitado ficar sabendo disso tudo através de mim, e é bem provável que você esteja se questionando do motivo real pelo qual eu resolvi te contar essas coisas e me reaproximar, por assim dizer. Eu mesma venho pensando muito sobre isso e acho que precisava te mandar essa carta para separar quem sou eu de quem é você. Não que eu não te queira por perto, e nem posso não querer. Quem eu sou hoje, o que tenho, o que quero ser e ter são produtos diretos da sua sobrevivência, que se deve a uma resiliência admirável, a uma certeza meio sem sentido de que dava pra tentar mais um pouco, de que se deu errado tantas vezes não deve ser mesmo para você desistir ainda, para você desistir agora. Se você tivesse deixado de existir como tantas vezes quis (e te sobravam estímulos para jogar tudo para o alto e te faltava apoio para continuar) eu não estaria deitada agora nesse sofá, curtindo esse domingo chuvoso trabalhando um pouquinho, assistindo Fluminense X Corinthians (empate por enquanto, com um pênalti não dado para a gente 😡), fofocando com a Klara (aliás, foi ela quem te apresentou o Medium, lembra de agradecer depois), falando contigo e esperando o jantar ficar pronto. Não fosse você eu não teria a chance de viver, de sonhar, crescer e de produzir. Eu te agradeço demais, porque a sua luta diária que muitas vezes escondi, as suas estratégias para não sucumbir que me envergonhavam, as suas escolhas que eu cansei de condenar são as mesmas que me trouxeram até esse instante, no qual eu me sinto confortável na minha pele, no qual eu respiro e sou de verdade.

Transformando a cabeceira da cama

Aliás, queria aproveitar a oportunidade para pedir desculpas por ter te desprezado tanto, por tanto tempo! Você não merecia! Nós não merecíamos! Você é motivo de admiração, não de descaso. Mesmo! Não quero que pense por um segundo que quero que a gente se separe porque não gosto de ti! O que acontece é que você é a Andressa adolescente e eu sou a Andressa mulher, que precisa ser adulta agora. Logo depois da sessão que a Lúcia me entregou aquele papelzinho eu percebi que ficava te deixando tomar frente em tudo, tomar conta do meu presente e me proteger do meu futuro, só que o que te cabe é o meu passado, teu presente, no qual você faz o melhor que pode, e já faz muito. Não posso te sobrecarregar, entende? Eu já sinto tanto por tudo de sofrido que você encara que não é certo te exigir ainda mais!

Nessas últimas semanas eu comecei a faxinar meu quarto e ainda tinha muito de você nele. Tinha muito até da Andressa menina, a criança que nós fomos num passado não tão distante assim. Arrumando o armário eu achei as suas roupas e quando reuni coragem as coloquei e me encarei no espelho… Foi aí que eu percebi… Não somos mais uma só. Nem era para termos sido, por tanto tempo. Esse é o momento certo para me despedir. Para te dizer que seu papel foi cumprido, e foi cumprido de maneira exemplar. Que eu estou muito orgulhosa e sou profundamente grata! Que já te perdoei por tudo que eu achava que você era culpada, e que espero que me perdoe por quase sempre te culpar por tudo. Eu te amo tanto, garota! Aqui dentro você estará sempre guardada (e um pouco por fora também, já que agora eu estou usando uma camisa sua)!

Vai tranquila e vai em paz! Daqui a Andressa crescida, que vai ser você um dia dá conta de tudo, do jeito que pode, do jeito que dá, do jeito que é possível (que é mais bonito porque se realiza, como a Lúcia mesmo diz)! Agora corre e decola, voa e voa muito, voa alto! Inspira fundo e sente o ar puro. Você é livre, enfim!

Praia do Leme, em Agosto de 2016

Se essas palavras de alguma forma te tocaram que tal fazer o (meu) ❤ pulsar?