Respeite a sua mágoa

Milo de Escorpião: o melhor cavaleiro que você respeita!

Sou escorpiana, nascida em 21 de Novembro de 1989. Pois é, hoje é o meu aniversário, mas não é para ganhar “parabéns” de vocês que destaquei minha data de nascimento e signo ali atrás (mas seus votos queridos serão muito bem-vindos, então aproveito para agradecer desde já, tá?). Aqui o buraco é um pouco mais embaixo, senhoras e senhores. Eu quero falar nessa segunda-feira ensolarada sobre um sentimento humano que às vezes cultivamos fervorosamente e em tantas outras jogamos para debaixo do tapete, como se de nada valesse: a mágoa. E de mágoa os escorpianos entendem, não é mesmo? Pelo menos é o que a galera ligadinha no zodíaco vive me dizendo!

Desde que me entendo por gente apontam como uma das principais características dos escorpianos a sua capacidade praticamente infinita de guardar rancor. Pessoas que nascem sob o Sol de escorpião cultivam as bads por tempo demais no coração, dizem os astrólogos. Se você pisar na bola com um de nós, ainda que aconteça apenas uma vez é melhor que saiba desde já que esse fato nunca, nunca, NUNCA será esquecido, e você ainda corre o risco de ser cobrado por isso para o resto da sua vida! O seu vacilo será sim lembrado e jogado na sua cara para toda a eternidade! MUAHAHAHAHAHAHA (era para parecer uma risada de vilão de filme, mas não rolou, né?)!

Enfim, no meu caso isso é bem verdade mesmo, pelo menos em parte. Mas com toda a honestidade do mundo: eu não acho que isso seja ruim, sabe? Eu imagino que na era good vibe feat. gratidão ficar chateado com alguém e recordar as coisas chatas que essa pessoa fez soe como uma verdadeira afronta social, mas com todo respeito: eu não me importo. E não é que eu não me importo porque acho esse jeito “deboísta” de ser um tanto quanto suspeito e inadequado, embora eu achei mesmo. Eu não dou a mínima para as críticas sobre essa minha forma de levar a vida porque ela funciona incrivelmente bem para mim! Pode crer que sim!

No aniversário de 2 anos, sendo bem escorpiana mesmo!

Quando Andressinha era uma doce menina ingênua, que dava a segunda, a terceira, a quarta chance, uma face, a outra e o traseiro pros coleguinhas chutarem ela só conseguia ser alvo de desprezo e de humilhação no ambiente escolar. Ser condescendente com a maldade e a ignorância alheia não me fez ter amigos na época em que eu os desejei mais ardentemente, e justamente por isso eu me via obrigada a aceitar qualquer coisa que eles viessem a oferecer na minha direção, ainda que fosse o pior, sempre esperando o melhor depois (SPOILER ALERT: o melhor não vinha nunca).

Já no início da adolescência rolou o episódio que conto nesse texto aqui, que acabou sendo um divisor de águas nas minhas relações, já que foi a partir dele que eu entendi que precisava ser recíproca com as pessoas. Ser recíproca para mim não significa abolir a existência daquele indivíduo dos meus pensamentos ou dar o troco (confesso que em alguns momentos da minha vida dei sim, só que todo Pokémon evolui e hoje eu confio no seu Madruga quando ele diz que “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”), mas sim agir de acordo com o que ela me oferta, seja lá o que isso for. Virar as costas ou reagir, mas não me vitimar. Para que a teoria se transportasse para a realidade passei a não me permitir esquecer o que tinham me feito, fosse isso bom ou ruim, para não cair na cilada de subestimar ou superestimar quem quer que estivesse comigo. Se isso é guardar mágoa então queria avisar a vocês que eu guardo mesmo, e ainda assim não sinto nenhum peso sobre os meus ombros.

Esse é o tipo de confissão que assusta, que gera caras amarradas e questionamentos. Queria avisar de antemão que eu entendo que não é o tipo de constatação fácil de se engolir e digerir. Entendo e entendo bem, porque fui criada na mesma sociedade que todos vocês, que diz que devemos perdoar incondicionalmente o próximo, mas que também nos incentiva a alimentar sentimentos de culpa internos e a forjar autopunições o tempo todo. Aprendemos a ser eternamente insatisfeitos com nós mesmos e extremamente tolerantes com quem não vai embora das nossas vidas, ainda que esse ser se encaixe perfeitamente naquele ditado “melhor só do que mal acompanhado”. Veja, eu pessoalmente não tenho nada contra o cultivo da paciência nas relações interpessoais, mas ela tem que ser uma via de mão dupla, não uma autoestrada sem retorno. Aliás, vale apontar que a tolerância está bem longe de ser um recurso inesgotável e é perigoso que tenhamos o hábito de aceitar falhas alheias tão recorrentes enquanto nos cobramos tanto, porque esse é um dos pilares que consolidam relações abusivas que vão se tornando mais perigosas a cada dia, independentemente da natureza que elas tenham.

Ainda do aniversário de 2 anos, ainda muito escorpiana, mesmo rodeada de presentes!

Eu sei que esse meu discurso soa um tanto contraditório, especialmente depois desse outro texto. Talvez aí resida a grande magia disso tudo: o fato de eu guardar mágoa, que reitero que para mim se trata apenas de ter em mente quem a pessoa é e do que ela é capaz (ou não é) não significa que eu não consiga perdoar e que eu não esteja aberta a surpresas que a vida gentilmente traga até mim. Por exemplo, eu trabalho continuamente no perdão a minha mãe, por ela ter me negligenciado quando fui abusada e por ela ter se omitido depois. Mantemos hoje a relação que nos é possível, não a ideal, não a que eu sonhei, mas a que se apresenta e que aproveitamos da forma que dá. Eu sei que em certos tópicos ela não é capaz de fazer muito por mim, por mais que talvez ela queira. Ela não vai me acompanha na terapia, nem senta e conversa comigo abertamente sobre tudo que aconteceu nesse sentido. No presente esses são passos que ela não consegue ou que ainda não está disposta a dar, e eu tento ser compreensiva e aceitar que cada um tem seu modo de ser e seu tempo de transformar. Em compensação ela sempre observa o quando eu evolui desde que comecei o meu tratamento, cuida de mim quando fico doente e se interessa demais pela carreira que estou construindo escrevendo. Uma coisa não substitui a outra, mas a consciência de que é isso que eu tenho, de que é isso que esse indivíduo pode me brindar agora me permite conviver e aproveitar, sem tanta frustração, sem tanta raiva. Evidentemente o caminho está aberto para ela dar um duplo twist carpado sobre essa temática se assim desejar, mesmo que eu esteja esperando apenas uma estrelinha porque essas viradas acontecem, gente, e eu já tive a chance de presenciar algumas! E como é bom!

Essa mesma lógica também se aplica para pessoas que me fizeram um mal tão grande que eu acabei me afastando, evitando a convivência direta. Se no momento eu não me sinto capaz de perdoá-las (e reconheço que isso diz muito mais sobre quem eu sou e onde estou na minha escala de evolução do que sobre as ações tomadas na minha direção) pelo menos me asseguro de não fechar nenhuma porta. Eu não deixo de atender, eu não bloqueio, eu não fico fugindo do sujeito. Eu fico no aguardo, esperando sem necessariamente esperar, me permitindo nesse entremeio aproveitar o meu direito ao resguardo, a proteção e ao cuidado. Também me acolho e me dou muito amor, o próprio mesmo, que é o que sempre tem para hoje, e porque não?

Veja esse print que tirei depois que digitei no Google do celular “mágoa + significado”:

“Mancha”, “impureza”, “mácula”, “tristeza”, “amargura”, “sensação desagradável”, “ressentimento” e “lástima” são algumas das palavras usadas para definir esse sentimento tão perturbador. Não me parecem sensações que devamos fingir que não estão lá. Acredito que as coisas tem que ser vividas como elas são, por piores que sejam, porque isso significa que somos de verdade, de carne e osso,não protagonistas e figurantes de um conto de fadas. Quando eu comecei a terapia contava passagens terríveis do meu passado rindo na sessão, algo que incomodava profundamente minha psicóloga, que dizia que não colocando o devido sentimento nas coisas que tinham acontecido e que aconteciam na minha vida eu estava simplesmente negando-as, fingindo que não existiam e que não me incomodavam. Mesmo assim elas ficavam lá, me espetando, me cutucando, me perturbando e o pior é que eu não podia fazer nada a respeito, porque se eu não agisse como se não estivesse acontecendo então o que me magoava se tornaria real, certo?

Imagine que a sua cabeça está cheia de piolhos. Eles te picam incessantemente, tomando o seu sangue e fazendo todo o seu couro cabeludo coçar loucamente. Apesar disso você está em um evento importante para sua vida: pode ser um encontro com o boy magia, um jantar de família ou uma entrevista de emprego, pode escolher. Não deu tempo de tratar essa praga e agora você tem apenas duas opções: ou lida com o incômodo fingindo que nada está acontecendo ou verbaliza o seu azar e pede ajuda. Com a mágoa funciona da mesma forma: você pode agir como se estivesse tudo bem e deixar que isso te corroa por dentro enquanto você grita em silêncio, ou você pode admitir o que está rolando, admitir que é uma bosta, admitir que isso está te chateando, te fazendo perder o sono e que quer resolver, ainda que não saiba como.

A Terra não vai parar de girar por você aceitar que está sofrendo. As pessoas não vão sair de seus caminhos por você não negar mais que está doendo. A única coisa que vai mudar é a sua disposição consigo mesmo, de ser sincero e de se entregar totalmente a sua verdade. Você vai estar se respeitando e assim ainda ajudará e muito a sua autoestima. Suas relações também vão se fortalecer, pelo menos as que restarem, porque infelizmente quando se é franco a tendência é que os laços se esgotem. A tendência é que tudo melhore, já que você não estará mais se anulando e assim ninguém mais tentará te anular (e se tentarem não vão conseguir). Quando você se considera, se quer bem e se valoriza aqueles que valem a pena seguirão a sua onda. Quem te quiser bem de fato não vai reverter o jogo, não vai te fazer achar que está magoado porque é dramático ou coisa que o valha. Quando você se abrir e se posicionar haverá mais troca, dessa vez honesta, pura e a partir do diálogo. Acredite: não há nada melhor!

Sendo assim, o meu conselho não requisitado da vez é o seguinte: reaja ao sofrimento, não ignore-o como se ele fosse desaparecer sozinho ou como se você devesse isso a alguém. Isso só vai piorar as coisas. Feridas só se curam quando são efetivamente tratadas e em tempos difíceis como o nosso bater o pé e se ouvir é um ato de amor próprio muito necessário, que vai revolucionar não apenas o seu eu, mas também o seu mundo!

Por fim, se quiser me dar mais que um simples voto de aniversário segue aí e deixa o seu ❤ marcado, porque isso sim vai me deixar muito feliz! 😜