HUMANIZE-SE

Como uma típica paulista, já sofri duas tentativas de assalto. O que não foi nada típico nessas tentativas é que nunca me roubaram nada, os bandidos desistiram de levar meus pertences nas duas vezes. Outro dia me peguei lembrando disso e tentei entender porquê:

Na primeira vez, estava parada no carro em um farol, distraída nos meus pensamentos. Nunca tinham tentado me roubar. Eu tinha um Pálio muuuito velho, de 1820. Chamava zero atenção de bandido. De repente, veio um moleque, devia ter uns 14 anos, com a mão por dentro do moletom apontando como se fosse uma arma ou era uma arma, mas acho que não. Pediu calmamente meu dinheiro. Coitado.

Ri cinicamente e perguntei: “Qual dinheiro!?!” e emendei a frase que aprendi com o senhor do deboche Maluf: “Se você encontrar algum dinheiro aqui, é seu! Pode levar, é seu!”.

O moleque arregalou o olho, meio sem saber o que fazer e eu não parei mais:

“Se eu tivesse dinheiro você acha que estaria dirigindo essa carroça!?”

“Se eu tivesse dinheiro você acha que eu estaria com o tanque no vermelho assim!? Não sei nem se chego em casa”

“Se eu tivesse dinheiro você acha que eu estaria com as unhas das mãos com esse esmalte descascado, tudo feio assim!? Olha para o lado, pô! Cheio de Audi e BMW e você ME escolhe para roubar!?!”

O pivete quase riu, mas se conteve: “Ah, então tá, tia. Deixa pra lá”.

No fim, a única coisa que ele levou foi minha juventude me chamando de tia.

Na segunda vez foi mais tenso. Estava de novo em um farol, distraída. Tinha acabado de trocar de carro e ainda não tinha realizado que agora fazia parte dos alvos dos bandidos.

Janelão aberto, celular na mão. Para uma moto com dois mal elementos, de capacete fechados. O da frente olha pra mim e diz algo que não consigo entender. Abaixo o som do carro, coloco a cabeça um pouco para fora da janela: “O que foi, moço?Não ouvi…”.

O cara fala mais alto, quase se esgoelando, mas eu não entendo novamente. “Desculpa, moço. Não consigo entender, melhor você levantar o capacete”. O cara imediatamente levanta o capacete: “Porraaa!Passa a merda do celular e não faz escândalo! Ca..lho!!!”

Eu fiquei chocada, sem saber o que fazer.

“Meu celular?”

“É, porra! Passa logo, anda, vai, VAI!”

Em tempos normais eu teria dado meu celular no mesmo minuto. Mas nada estava normal, minha mãe tinha falecido há pouco e no meio do turbilhão do luto não tinha feito backup das nossas últimas fotos e mensagens trocadas. Meu maior tesouro.

“Ah, moço, meu celular eu não vou passar não, escolhe outra coisa, leva o carro. O celular não, por favor!”

“Que??? Cê ta louca?! Passa essa merda! Vai, vai!”

Por dentro eu estava frenética, em pânico, por fora comecei a repetir “Minha mãe acabou de morrer e as últimas lembranças estão aqui”, calmamente, por diversas vezes.

Incrivelmente, ele escutou:

“Que cê ta falando? Quem morreu?”

“Minha mãe, minha mãe morreu há pouco tempo e as últimas fotos, mensagens estão aqui. Não leva minha memória de mim”

Ele me olhou diferente e mudou o tom de voz. “Sua mãe morreu? Porra… Então beleza. Fica aí como seu celular. E vê se salva os bagulho ae num computador. Valeu, tudo de bom!”.

Juro que ele me desejou tudo de bom. O cara tem ou teve uma boa mãe,só pode.

Agora relembrando, percebi algo que os dois casos têm em comum. Eu, instintivamente, contei um pouco de mim para aquelas pessoas que estavam me ameaçando. Dividi com eles um tiquinho da minha história. Eu me humanizei. E com isso, eles se humanizaram. Me viram como semelhante. Deixei de ser alvo para virar gente de verdade.

Já passou da hora do ser humano se humanizar.

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