A melhor experiência da minha vida

Felipe Pessanha
Sep 9, 2018 · 3 min read

O sol não havia nascido ainda. Um dia quente se arrastou com naturalidade em direção à uma noite agradável, que cambaleava adentro de uma madrugada fria.

Um daqueles espetáculos cotidianos, que eu não tinha trazido meu casaco pra assistir.

Com os braços cruzados na frente do corpo, eu observava um pequeno grupo que tentava conseguir um táxi. Braga trocava calorosas palavras com uma pequena mulher do grupo. Ela tinha cabelos pretos com um ar divertido; e uma voz acolhedora. Já era a segunda vez que eu via aquela pequena mulher. Ela trabalhava no bar em frente ao velho apartamento de Braga. A primeira vista chamava a atenção pelo tamanho — tenho a impressão de que o topo de sua cabeça não ultrapassava a altura do meu coração. Uma segunda olhada bastava para concluir que era muito bonita.

Braga era um homenzarrão. Ombros largos, estrutura pesada; Imenso. Eu me achava grande, mas ele era grande em outro nível. Existia algo confortável em ver aqueles dois numa conversa animada.

O vento frio me fazia apertar ainda mais meus braços contra meu peito. A pequena mulher se encolhia. Braga era completamente alheio à temperatura; Como um monumento, uma espécie de estátua. Empapuçado daquela pequena e radiante presença ao seu lado, parecia incapaz de morrer.

Antes que eu tivesse mais tempo para absorver aquela dupla esteticamente improvável, outra mulher se aproximou:

— Mari, eu não tô conseguindo nenhum táxi.

Rapidamente, como se eu tivesse acabado de surgir ali, me materializando do nada, ela me lançou um olhar surpreso, seguido de um sorriso perfeito.

— Prazer, Gabi.

Ela usava um casaquinho de lã desabotoado e um cachecol pendurado no pescoço.

— Prazer, Pessanha.

Como se minha deplorável postura entregasse todos os meus maiores segredos, Gabi abriu seu casaquinho desabotoado como se me convidasse a me juntar a ela no conforto de seu agasalho. Baixei os braços debilmente, buscando parecer menos indefeso.

— Não precisa, tá tudo bem.

Ainda na mesma posição, com os braços abertos, ela inclinou um pouco a cabeça pra esquerda e me lançou outro sorriso perfeito, me estudando com os olhos. Me aproximei hesitante. Como se meus membros não me pertencessem, coloquei com dificuldade as mãos nas costas da menina, por dentro do casaco. Ali ficamos, calados, coração com coração, como se eu não houvesse acabado de recusar seu abrigo.

Com as mãos imóveis eu sentia a respiração suave, subir e descer, enquanto ela me enrolava com seu cachecol. Apertei o abraço e nos seguramos. Incapaz de me mover ou de dizer qualquer coisa, fechei os olhos e senti as mãos quentes de Gabi percorrerem meus braços e costas. Em silêncio, respirava fundo o perfume em seus cabelos. Não sei quanto aquilo durou. Já estávamos lá a algum tempo quando alguém a perguntou sobre o táxi.

— Agora não, isso é importante.

Sua voz era reconfortante atrás da minha cabeça.

— Você tem uma energia muito boa.

Não, eu não tenho! Eu sou o Pessanha; o abismo; a doença; com alma de fábrica abandonada e olhos de espingarda (descarregada).

— Você também. — Foi tudo que consegui dizer.

Afrouxei meu aperto para olhá-la nos olhos. Outro sorriso perfeito. Dessa vez eu tinha o meu próprio sorriso cinza, xerocado por cima da cara. Nos apertamos uma ultima vez.

— Muito obrigado.

— Imagina.

— Você está acostumada a fazer isso?

— As vezes… Faço na Mari de vez em quando, mas senti uma energia boa em você.

— Isso foi incrível.

— Eu tenho que ir agora.

Um táxi.

— Tchau Mari. Tchau Gabi, foi um prazer enorme te conhecer.

Gabi baixou as janelas escuras revelando um último sorriso perfeito.

— Gostei muito de você.

Acenamos um pro outro como se nos perdoássemos por termos nos afastado. Na manhã seguinte pássaros me sobrevoavam com asas deformadas

como

morcegos.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade