L A E

Hoje eu entendo que o amor é invisível. É o estar e o não estar, o ser e o não ser. Essas coisas clichês. Não é um conjunto de qualidades da outra pessoa, é simplesmente a outra pessoa, como um todo. Se alguém conseguir enumerar as qualidades de alguém… não é amor. O amor não te faz pensar, ele te faz sentir. E esse sentimento não é amor, é outra coisa. Só não sei explicar o que é…

Para mim esse sentimento sempre esteve lá, na forma de alguém. Na forma dela. Se me pedissem para descrevê-la, não conseguiria. Era algo além dos meus olhos. Quando penso nela não me vem uma imagem, um rosto. Me vem um sopro, uma luz, um abraço. É tudo o que tenho, e é mais que suficiente.

Todos ao meu redor a conheciam. Sempre falava dela para quem quisesse ouvir. Curiosamente, uma das situações que mais me perturbava surgia quando me perguntavam o nome dessa minha namorada. Ela não tinha nome. Se tinha, não conseguia me lembrar. O que é outro fato curioso, alguns dirão. Não gosto de nomes, eles são puramente… nada. De qualquer forma isso não justifica o fato de eu não saber o nome de alguém tão importante para mim.

Outro tipo de desconforto surgia de outra pergunta. Me perguntavam quando e onde conheceriam a tal moça que me fisgou por aí. É até meio poético dizer isso dessa maneira, mas é a única maneira… para mim ela estava comigo o tempo todo, onde estivesse. Por mais que me soasse estranha a pergunta, eu respondia como se fosse óbvio. “Ela está aqui”. E apontava para a cadeira ao meu lado ou para alguma direção. Uns davam risada, outros erguiam as sobrancelhas e baixavam os olhos. Não entendia os porquês.

Por outro lado, nunca conheci ninguém da parte dela. Não falávamos muito sobre isso até porque não precisávamos. Estávamos felizes daquele jeito e eu não precisava de algum conhecido dela para me sentir melhor. Nem por curiosidade. Devo admitir que era importante eu ter ido atrás, só que percebi isso quando já era muito tarde.

Ela só existia junto a mim. Se tentasse pensar nela em outro lugar, com outras pessoas e longe de mim, seria pura imaginação. Acasos ligados a acasos que gerariam um mundo em minha mente, mas nada real. O real só existia comigo.

Há poucos meses essa ideia de realidade ruiu. Me disseram que o que eu pensava ser real, não era. Perguntei-lhes como sabiam. Me responderam que apenas eu conseguia ver o que chamava de “ela”, que ninguém mais sabia do que eu estava falando. Achei que todos estavam loucos. Era uma presença tão forte, como apenas eu poderia senti-la? Não fazia sentido mas, afinal, nada faz.

Por um tempo pensei que tinha sido tudo uma mentira, inventada por mim. Besteira. Foi tudo muito verdadeiro. Mais verdadeiro do que muitas situações não imaginadas. Uma pessoa pode ser sim uma ilha, desde que do mar seja feita uma companhia.

Uma coisa eu aprendi, os olhos estão aí para enganar. Assim como os sentimentos. Se dizem que se os olhos não veem, o coração não sente, é porque nada sabem. Estão invertendo as orações e os sentidos. O certo, indiscutivelmente, é “se o coração sente, os olhos veem”.

Like what you read? Give Daniel Rybak a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.