M M R S E Ó I A

Era noite. Chovia. Tinha certeza de que faltaria luz e, sinceramente, essa ideia me reconfortava. Estava sozinho no apartamento, realmente não sabia onde estavam as outras pessoas. Por mais que a luz ainda estivesse acesa, não conseguia enxergar muito além. A luz parecia pairar apenas sobre mim.

Foi numa dessas tentativas de enxergar um pouco mais à frente que vi uma caixa em cima da mesa, na sala. Nunca havia reparado nessa caixa. Moro aqui há 21 anos e nunca deixamos nada sobre essa mesa. Curioso, fui até ela.

Puxei a cadeira, sentei-me à mesa e puxei a tampa. Folhas de papel. Várias. Estavam dobradas como se dobra uma carta antes de a colocar no envelope. Pareciam simplesmente jogadas ali, como que esquecidas ou simplesmente como papel antigo e sem valor. Peguei uma e comecei a ler. Era uma história.

Todas eram histórias e, talvez o mais interessante, é que eu me lembrava vagamente de algumas delas. Me pareciam memórias, lembranças distantes. Li mais algumas até que me deparei com um pedaço de papel mais novo, mais cuidado. Abri-o e comecei a ler. Impossível. Era um relato do que me tinha acontecido no dia anterior àquele. Mais especificamente o que eu havia pensado naquele dia.

Procurei por outro pedaço de papel, do mesmo estilo do anterior. Mais um relato, dessa vez de dois dias anteriores. Li mais e mais. Não podia ser, era alguma brincadeira de alguém. Sei lá. Me convenci de que eu é que não ia achar as respostas para aquela situação bizarra. Já era muito tarde. Resolvi deixar a caixa lá e só voltar a pensar nisso no dia seguinte. Alguém teria alguma coisa para me contar.

Acordei. Não havia ninguém para me contar nada. Por algum motivo adormeci com a luz acesa. Nem reparei. Fui até a sala. A caixa não estava mais lá. Fiquei parado por alguns segundos, fitando a mesa, e fui em direção à cozinha, precisava dar uma boa acordada antes de revirar minha cabeça tentando entender o que acontecera na noite anterior. No caminho, pouco depois de passar pela mesa, pisei em algo. Um pedaço de papel.

Peguei e abri. Palavras apareciam de uma forma descompassada no papel, como se elas estivessem sendo escritas por uma mão invisível ou algo do tipo. Realmente fica difícil descrever aquele momento. Quando me dei conta do que aquelas palavras representavam, prendi a respiração. O que estava sendo escrito era justamente o que eu estava pensando naquele momento, palavra por palavra.

De repente tudo parou. Ou melhor, as palavras pararam. Não havia nada para pensar. Não havia mais nada a ser pensado. Não havia mais dúvida ou confusão, pelo contrário, tudo estava muito esclarecido.