Prata Brilhante, parte 1

Uma história de auto-engano


No último domingo, dia 12, Antonio Prata escreveu na Folha de S. Paulo um artigo chamado “O chapeiro e o dono da padaria”. Reproduzo abaixo um trecho desse artigo e o comento logo em seguida.

O chapeiro e o dono da padaria
As vitórias da Dilma, no Nordeste, do Aécio, no Sudeste e a mesma divisão mostrada pelo Datafolha para o segundo turno ressuscitaram o velho preconceito de que pobre não sabe votar. Os mais ricos e escolarizados escolheriam racionalmente e votariam no PSDB, enquanto os mais pobres e com menos anos de estudo, iludidos pelas “esmolas” e falsas promessas do governo, fechariam com o PT.
Essa ideia equivocada deriva de uma falsa premissa: a de que existiria o voto certo e o errado. Candidaturas não representariam interesses distintos de diferentes camadas da sociedade, mas sim a verdade ou a mentira. (…)
Ora, bolas, o Nordeste não deu 60% dos votos à Dilma porque foi enganado por ela. Deu porque, sob o PT, as condições de vida daqueles milhões de eleitores melhoraram. E o mensalão? E o escândalo da Petrobras? E a inflação? Nada disso conta? Não a ponto de escolherem outro candidato. É um voto racional.
A mesma coisa vale para os 39,45% do Aécio no Sudeste. O sudeste é mais rico, vê seus interesses representados pelo candidato, não precisa tanto de programas sociais — só quer menos Estado, evidentemente, quem não depende dele. E o mensalão mineiro? E o escândalo do metrô? E a compra de votos pra reeleição? Nada disso conta? Não a ponto de escolherem outro candidato. É um voto racional.
Na boa: você não precisa ser marxista-leninista pra concordar que as necessidades do chapeiro são diferentes das do dono da padaria, vai?

O auto-engano de Antonio aparece já no título. Quem é o chapeiro senão um representante do bom e velho trabalhador da narrativa marxista, aquele que não possui os meios de produção (a padaria) e que, por isso, não tem outra opção a não ser oferecer sua força de trabalho em troca de algum dinheiro? E quem é o dono da padaria senão um legítimo burguês — o personagem que, possuidor dos meios de produção, contrata a força de trabalho do chapeiro e o faz trabalhar em troca de um salário que não reflete aquilo que ele efetivamente produz?

Que Antonio não queira ser considerado “marxista-leninista” (e ele claramente não quer) é perfeitamente compreensível: um rótulo como esse prejudicaria sua auto-imagem de analista racional, que olha a realidade de forma crítica e que se coloca acima do mero jogo político para dele extrair um julgamento superior, definitivo e independente. “Não é preciso ser marxista-leninista” — ou seja, vamos deixar de lado o “Fla-Flu ideológico”, vamos às coisas como elas realmente são antes de serem contaminadas pelas paixões da esquerda ou da direita. É isso que ele quer dizer.

Que os leitores de Antonio, por sua vez, gostem dessas tentativas de isenção e independência é também muito compreensível. Afinal de contas, a Folha não é feita para leitores que aceitam rótulos pesados como “marxista-leninista”; a Folha é feita para pessoas como Antonio, que acreditam ser “equilibradas”, “sensatas” e “isentas”.

Mas a imagem que Antonio e os leitores da Folha têm de si só é relevante para nós na medida em que é falsa, ou seja, ela só interessa como indício de auto-engano, nada mais. O que realmente interessa, então? Identificar, na fala do articulista, os sinais de uma estrutura de percepção da realidade, um conjunto de reações, olhares e perspectivas extraídos diretamente de um certo senso comum — o senso comum esquerdista, que a intelectualidade brasileira há anos ventila pelos corredores das universidades, redações de jornal e, mais recentemente, pela internet.

E por que essa é a parte importante? Ora, porque é aí que vamos identificar como o articulista percebe o real: se ele faz isso de maneira sincera, num contato direto, sem truques, com as coisas de verdade, ou se essa percepção se dá dentro de uma relação de auto-engano informada por um certo discurso, e por uma certa vontade de parecer ser uma coisa (num fingimento, portanto).

Ora, o título do artigo já aponta para uma estrutura de percepção no seio da qual existe uma narrativa do drama social vivido por oprimidos e opressores, pobres e ricos, chapeiros e donos de padaria. Essa narrativa não tem qualquer obrigação de corresponder à realidade, e, de fato, normalmente não corresponde, porque não foi feita pra isso, mas sim para convencer e persuadir; no entanto, parte da estratégia de convencimento envolve justamente maquiar o discurso para que ele passe a ser considerado a própria realidade (a realidade inteira, e não apenas uma narrativa ou um fragmento dela), e é aí que Antonio acredita estar olhando para o real quando está, na verdade, recortando um pedacinho do real (a classe social dos atores) e olhando só para esse pedacinho. Eis a raiz do auto-engano.

É claro que a percepção, nesse registro, vai ser sempre enganosa. Dela brota uma confusão generalizada, uma substituição de coisas reais por figuras de linguagem, abstrações falsificadas e fragmentos do real. Mas o sujeito que está envolvido na história acha que está percebendo tudo com muita clareza. Ele vê a realidade tal como foi instruído a vê-la, sem a sinceridade e a abertura de espírito daqueles que buscam uma relação própria e genuína com o universo sensível, e sem a humildade de quem aceita a complexidade infinita do real como um dado da própria percepção. Assim, as posições ocupadas pelos atores na estrutura de produção (isto é, os postos que definem se os atores controlam os meios de produção ou se vendem sua força de trabalho) passam a ser a matriz-chave para interpretar tudo aquilo que as pessoas efetivamente são, ou pelo menos aquela parte do ser que nos interessa. A que se referem, por exemplo, os “interesses” dos quais fala Antonio? Provavelmente a um conjunto de expectativas e anseios que variam de pessoa para pessoa. Muito bem, e como se dá essa variação? Ora, na narrativa marxista ela se dá segundo a classe ocupada pelos atores em questão — como no artigo de Antonio: de classes diferentes brotam interesses diferentes, e os interesses individuais, portanto, deverão refletir os interesses das classes ocupadas pelos indivíduos. Antonio passa disso ao voto com a mesma naturalidade que um marxista ingênuo passa dos interesses de classe à ação propriamente dita.

Estamos, portanto, no universo analítico do marxismo. Tudo isso aparece no artigo de Antonio de maneira bem decantada, talvez até discreta, mas, para o observador atento, está lá.

Antonio julga estar acima do discurso ideológico, embora sua percepção da realidade seja baseada nesse discurso, e embora esteja escrevendo de dentro do mais puro senso comum marxista. Resta, portanto, saber qual é o problema da análise marxista. Isso fica para a parte 2.