A nostalgia do mistério

Donato S. Ferrara
Aug 12, 2019 · 7 min read
Photo by Artem Kovalev on Unsplash

Começo confessando um hábito peculiar: aos domingos, quando me sobra algum tempo depois do almoço, reviro o YouTube em busca de certos vídeos. Eles têm a ver com OVNIs, fenômenos paranormais, comunicação com espíritos. A maior parte deles foi produzida nas décadas de 1980 e 1990 e só está disponível online pelo zelo de colecionadores de VHS interessados nesses temas.

Um deles, Nelson Pinta, tem um canal que conta no presente com mais de 38 mil inscritos e disponibiliza centenas de vídeos. Ali, ele nos oferece edições do “Globo Repórter” que falam dos visitantes extraterrestres, diversas reportagens do “Fantástico” investigando poltergeist e outras manifestações, entrevistas que Jô Soares fez com ufólogos e sensitivos. Pixelados, voltam à vida o médium Luiz Gasparetto, com seu programa “Terceira Visão” (Band), o diretor de TV Walter Avancini, que comandava a atração “Mistério” (Manchete), Goulart de Andrade, nas reportagens especiais à frente de seu Comando da Madrugada (vários canais), e o professor Flávio A. Pereira, que, a partir do final dos anos 80, procurava informar o público brasileiro acerca dos avanços da ufologia e da parapsicologia no exterior.

Assisti, na época de difusão, a uma parte considerável do material oferecido por esse canal. Há de minha parte uma memória afetiva envolvida. E não me limito, evidentemente, ao acervo de Nelson Pinta: tenho procurado coisas similares, inclusive de outros países. Até mesmo reportagens e programas recentes, embora estejam bem mais raros. Acompanho youtubers que tratam do tema atualmente, mas não tenho paciência para tudo o que dizem. Alguns só deliram, não trazem, já nem digo fatos, mas nem mesmo versões críveis.

O que é mais peculiar neste meu hábito, que nasceu nas tardes de domingo e se tem espraiado por outros dias da semana, é que sou cético relativamente a todas essas coisas. Considero os indícios e as evidências aduzidos por esses jornalistas e pesquisadores, do passado e do presente, insuficientes.

Quando adolescente, li a maior parte da edição impressa do Projeto Livro Azul e estou de acordo com o que ali aprendi: é tudo inconclusivo. Não nego que exista o mistério, mas creio que estejamos mal equipados para lidar com ele. Acontecimentos inexplicáveis permanecerão inexplicáveis. E isso sem mencionar os equívocos e as fraudes, que devem responder por 90% desses casos espetaculares.

Mas sou o primeiro a reconhecer que posso estar errado. Concedo muita vez a palavra ao príncipe da Dinamarca: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”.

Por que me interessam então esses vídeos que tratam de assuntos que acolho tão ceticamente? É que, respondendo ou não a uma realidade verificável (e tudo me leva a crer que não), eles me comunicam certa nostalgia, me nutrem dela. “Nostalgia” é a dor (álgos) provocada pelo desejo do retorno (nóstos) de uma coisa. Algo ligeiramente melancólico: decerto prenhe de idealizações, não muito pungente.

O que me deixa particularmente nostálgico quando penso nesses temas é que eles tinham uma respeitabilidade que dificilmente têm hoje. Eu me lembro de momentos em que o próprio “Jornal Nacional” chegou a noticiar, de passagem, que luzes inexplicáveis tinham sido avistadas em São Paulo e outras cidades. Havia revistas de circulação razoável que falavam da Atlântida, de magia, da futura chegada em massa dos discos-voadores. A mais famosa delas era a Planeta, franquia nacional de uma iniciativa francesa, fundada por Jacques Bergier e Louis Pauwels. Para além da temática, eram sujeitos que escreviam muito bem. Foram eles que cunharam, aliás, o termo “realismo fantástico”.

Debates a sério eram conduzidos na TV. Aqui, neste Brasil pouco dado a discussões públicas, quem os conduzia era quase sempre Silvia Poppovic. Em lugares como a Espanha, houve uma infinidade deles, mais ou menos entre 1970 e 2000. A essas contendas televisivas compareciam indivíduos como Andreas Faber-Kaiser, Antonio Ribera, Salvador Freixedo — e isso apenas para citar alguns dentre os ufólogos. Os nomes não dizem nada para nós, brasileiros, mas eram homens de cultura, que por vezes se digladiavam contra indivíduos também cultivados. Está tudo no YouTube.

Um desses espanhóis, o conhecido J. J. Benítez, autor da série Cavalo de Troia e de dezenas de obras sobre mistérios, resumiu o atrativo desses temas para muita gente daquele país. Eles representavam, a partir da década de 1970, a possibilidade de sonhar com outros mundos, mais livres, em que não haveria a opressão da ditadura franquista. Seus desejos de evasão concretizavam-se naquelas possíveis realidades paralelas. Faz sentido.

Não descarto que algo assim se tenha produzido nas mentes de muitos brasileiros. Como se sabe (mas alguns fingem ignorar), também por aqui houve autoritarismo.

A hipótese de Benítez tem méritos, mas não dá conta de tudo. Nos EUA, que não viveram sob ditadura, o sucesso desses temas também foi palpável, em particular da temática dos UFOs. E isso desembocou, apenas para dar um exemplo, em uma série de TV como Arquivo X, que foi ao ar entre 1993 e 2002. O mote da série dizia: “A verdade está lá fora” (The truth is out there). O mundo é cheio de mistérios: você tem de sair de sua imobilidade, de sua zona de conforto, e ir buscá-los. Na vida real, Benítez e outros pesquisadores faziam isso por interesse jornalístico ou literário; os personagens da série de Chris Carter, por um sentimento de missão, que vai se acentuando, episódio a episódio.

(E, quase desnecessário dizer, aos governos, reais ou fictícios, sempre interessou manter a maioria na ignorância.)

Arquivo X é talvez o seriado mais emblemático da década de 1990. Fox Mulder e Dana Scully, com suas personalidades complementares, investigavam aquilo que outros agentes do FBI não consideravam digno de sua atenção. De modo irônico, dava-se ali densidade a mitos, rumores, lendas urbanas. Os agentes nunca tinham a confirmação cabal dos fenômenos inexplicáveis com que se defrontavam, ou nunca tinham o panorama completo do problema. Um sentido de perseguição, de vigilância constante e mesmo de dúvida e paranoia perpassa toda a série.

Uma das premissas de Arquivo X tem a ver com a disponibilidade tecnológica da época: nos anos 1990, era difícil filmar e tirar fotos. Não havia smartphones com câmeras. Mulder e Scully presenciavam coisas do arco-da-velha e não tinham como registrá-las, nem tampouco como prová-las. Em 2018, Carter tentou reavivar a série, com mais cinco capítulos. Não deu certo o reboot, apesar da precaução de fazer de Mulder alguém que não sabe usar um celular muito bem. Os tempos são outros.

A realidade sob a lente de Chris Carter ou pela pena de J. J. Benítez era misteriosa. Muito disso se perdeu. Os tempos são outros, disse. Temos câmeras em todos os lugares. Sabemos demais sobre as outras pessoas, inclusive temos notícia dos restaurantes que frequentam. A vigilância matou muito do que havia de potencialmente encantador e/ou sinistro no mundo. Ele nos prometia fantasmas, aparições, abduções, manifestações, ectoplasmas. Era uma ilusão, claro, mas tinha algo de idílio — ou é a nostalgia que mente para mim.

Posso estar errado, mas, se a ufologia tivesse razão, por exemplo, devia ter havido uma explosão de vídeos de naves flutuando por aí nos últimos anos, com boa qualidade de imagem, pois agora todos temos câmeras à mão. Haveria, forçando a barra, selfies com alienígenas. Ou estou muito mal informado, ou nada disso existe.

Hoje, o mundo nos entrega zilhões de métricas e metadados, com sua indecifrabilidade. A natureza deixou de ser apavorante, com seus recessos de coisas inexplicáveis, e o próprio mundo da tecnologia, que alimentamos meio inconscientemente, virou a fonte maior de nossos medos. A verdade está na nuvem, em servidores anônimos, sendo conhecida ou manipulada em atendimento de sabe-se lá que interesses.

Nas minhas incursões no YouTube, busco algo dessa atmosfera que se perdeu, cujos fumos ficaram lá por uns vinte ou trinta anos atrás. Noto que mesmo os mais jovens procuram isso em uma série como Stranger Things, a qual, não por acaso, se passa na década de 1980. Porém, o seriado que mais claramente tipifica o período que vivemos deve mesmo ser Black Mirror.

Tudo pode não passar de uma ilusão retrospectiva, é claro: o mundo daquela época era talvez tão prosaico, tão destituído de mistérios genuínos quanto o é o de hoje. Não era metrificado ou traduzido em metadados, contudo.

É curioso pensar que aquela efervescência de relatos misteriosos ou sem cabimento, aquele florescimento da retórica new age e da pseudociência, continham em si um não sei quê de humanismo. O ser humano era pequeno diante da realidade não humana que o transcendia, não pequeno diante da tecnologia que o engolfa. Lunáticos alguns, sem dúvida: mas livres. Em muitos casos, o mistério — mesmo uma manifestação algo aberrante de tal mistério — parece ter uma relação com o sentido de liberdade.

A questão toda é saber se somos, hoje, algo além de produtores de dados, se importamos para além do impacto que causamos com nosso vagar virtual.

Ainda que eu não acredite nessas coisas de que falei, há algo em mim que desejaria que o mundo fosse assim tão permeável ao mistério quanto me parecia, anos atrás. Pois assim se mitigaria esta sensação, que é de muitas outras pessoas, de que não passo de uma mosca presa a uma teia. A fly caught in a web.

Onde está a verdade?

Donato S. Ferrara

Written by

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

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