Antígona e a cultura do cancelamento

Donato S. Ferrara
Feb 21 · 11 min read
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Em meados de 2019, a atriz Andréa Beltrão se apresentou em importantes cidades brasileiras com uma montagem de Antígona, clássico do teatro. A adaptação da peça, assinada por ela e pelo diretor Amir Haddad, era peculiar: em vez dos nove personagens previstos no original de Sófocles (além do coro de anciãos, com o Corifeu), a atualização do drama grego contaria apenas com uma voz, a da protagonista homônima. Estava reduzida, portanto, a monólogo: Antígona por si mesma — e somente por si mesma.

A opção artística de Beltrão e Haddad tem méritos, certamente. Celebro, aliás, a inegociável liberdade que todos devemos ter de criar e de fazer releituras dos antigos. E isso porque prezo minha própria liberdade de apontar o que me pareça inconsistente na produção cultural. Mesmo quando se trata de um espetáculo a que não pude assistir.

O fato é que minha admiração pelo gênio de Sófocles e pelo meio que o viu florescer me pôs em reflexão. Estamos, talvez, ante mais um indício de que o ambiente da experiência democrática de Atenas era bastante diverso do de nossa própria democracia. Se não é uma percepção nova, ela ao menos nos dá oportunidade de iluminar a posição que ocupamos pela comparação com um passado longínquo.

Sem nostalgia nem ufanismo, constato que, se é verdade que o regime moldado por Sólon e Clístenes relegava mulheres, escravos e estrangeiros a condição subalterna (página que viramos após tantos séculos), também nos chama a atenção o fato de que as discussões públicas que ali se faziam tinham uma complexidade tal que hoje mais afugentaria do que atrairia nossos concidadãos.

Como nos lembra Jornada nas Estrelas, é possível sair em busca do “melhor de ambos os mundos”.

A peça de Sófocles, composta por volta de 441 a.C., se baseia na disputa entre Antígona, filha mais velha de Édipo, e seu tio Creonte, que herdara o trono de Tebas. Não sabemos quem batizou a obra (talvez um filólogo bizantino, muito depois), mas ela bem que poderia intitular-se Creonte. Matematicamente, as falas de Antígona totalizam 230 versos, e as de seu tio, 397. Sob prisma qualitativo, o título que temos se justifica plenamente: mesmo em silêncio, mesmo fora de cena, o caráter indomável da jovem, que não se importa em morrer, é impressionante.

Ainda assim, uma tragédia pressupõe diálogo, altercação, choque. Estamos falando da tragédia de Antígona e Creonte. A piedade e o horror, no dizer de Aristóteles, são ali despertos pela interação entre dois destinos. É como um sistema estelar binário: Antígona tem mais brilho, mas seu movimento não se explica sem o outro polo de gravidade.

O que Sófocles põe em cena é o drama de uma princesa que pretende realizar as exéquias de Polinices, seu irmão caído em batalha. A dificuldade estava em fazer isso em circunstâncias bem específicas: o jovem tinha se medido em armas contra o irmão, Etéocles, atacando a própria cidade com aliados estrangeiros (é o tema dos Sete contra Tebas, de Ésquilo). Os dois se haviam entrematado, o que prefigura a própria dualidade posterior, Creonte-Antígona.

Havia portanto a percepção de que Polinices era um traidor — e Etéocles, um herói. Creonte, ascendendo ao trono, proclama um edito segundo o qual o cadáver de Polinices não devia ser tocado, sob pena de apedrejamento. Com altivez, Antígona se insurge contra a determinação real, vendo-se obrigada a cumprir o dever familiar de enterrar os seus mortos. Ela evoca leis divinas, superiores às humanas. Creonte, por seu turno, também se vê lastreado em uma espécie de direito divino, crendo na sacralidade de Tebas. Os dois são acometidos pela ira; Antígona acaba condenada a ser encerrada viva em uma caverna.

Os gregos que tomavam assento na plateia dos teatros da época assistiam a um embate vívido entre os argumentos e as paixões que agitavam, alternadamente, a princesa e o monarca. Cada personagem expunha seu modo de pensar e agir — no que era contrastado pelo outro. Antígona defendia a família e leis não escritas, Creonte, a coletividade política, com leis que explicitavam o que seria o bom convívio.

Conhece-se ao menos o fundamental da leitura de Hegel da peça: haveria uma “paridade de direitos” retratada ali, cada qual procurando demonstrar por que o valor a que se aferrava era superior. São concepções diferentes de justiça. O “ponto cego” de cada um evidencia como que uma simetria: Antígona não consegue entender que não é só uma irmã, mas cidadã tebana, Creonte não vê que é também pai, além de rei da cidade. Ao nível do humano, digamos assim, há um empate — porque as falhas se equivalem.

C. M. Bowra, no capítulo dedicado a essa peça em seu Sophoclean Tragedy, observa que o conflito poderia ter sido evitado se alguém tivesse pensado na possibilidade de sepultar o corpo de Polinices para fora dos limites sagrados de Tebas. É uma alternativa intermediária que poria fim ao destino trágico. Mas isso não acontece. No fim da obra, há os suicídios de Antígona e da família do rei: de seu filho, Hêmon, e de sua esposa, Eurídice. A cena final traz Creonte carregando o filho nos braços, enquanto se lamenta da própria falta.

Se há equivalência ao nível humano, os deuses não parecem ter dúvidas. Segundo Bowra, eles se pronunciam quanto a quem tem razão por meio da admissão da responsabilidade do próprio Creonte. Ele percebe que estava errado e tinha se obstinado no erro. Para os espectadores, seu sofrimento é didático.

Conflitos como o de Antígona e Creonte existem no mundo real. O problema é que os deuses não se pronunciam para arbitrá-los.

O espírito democrático ateniense, com as suas conhecidas limitações, era capaz de conceber que duas pessoas que se antagonizassem tinham o direito de exprimir-se, de falar em condições mais ou menos parelhas. Era um direito inalienável: caberia ao povo decidir quem provavelmente tinha a razão. Sendo ambos os adversários portadores de dignidade e racionalidade, uma questão como a da justiça não se entendia como simples polarização entre bem e mal, preto no branco, sem matizes cinzentos. O exercício desse direito estava em uma obra ficcional como Antígona, mas também nas instituições de Atenas e de muitas outras póleis. Daí o prestígio da retórica em todo o mundo helênico e a emergência do diálogo filosófico pela intervenção de Sócrates, por exemplo.

Assim, a bem poucos gregos do século V a.C. ocorreria a ideia de cassar o direito à palavra de Creonte, ainda que os deuses tivessem decidido — como pensava Bowra — que a causa do rei de Tebas não era a mais justa. Entretanto, no Brasil do presente, pessoas entre as mais cultas e bem colocadas da sociedade parecem ver com naturalidade que um drama que opõe duas visões distintas da justiça possa ser apresentado em forma de monólogo. Ou seja: exclusivamente pela perspectiva daquela com quem se tem mais empatia.

Aqui há mais, talvez, do que simples escolha artística. O contexto e as entrelinhas contam. No auge da Ditadura Militar, encenar a Antígona era uma provocação aos repressores. Ouvi falar de uma dessas montagens que acabou enquadrada pela polícia — atores e público em cana. Um dos líderes da operação teria dito que era preciso encarcerar o autor de uma obra tão subversiva. Pode não ser verdade, mas dá uma medida do potencial “nitroglicerínico” da peça — ainda mais naqueles anos.

Quem quer que ame a liberdade e deteste vê-la sob os coturnos do abuso estatal se coloca imediatamente ao lado de Antígona. Daí a silenciar Creonte, são outros quinhentos. Creio não exorbitar muito em minha interpretação ao dizer que observamos hoje, mais uma vez, a tendência de se combater o que entendemos por autoritarismo exercendo outras modalidades de autoritarismo — e eis o porquê deste meu paralelo.

A Antígona de Andréa Beltrão discursava em frente a um mural com verbetes explicativos da mitologia de Tebas, como a evocar um hipertexto. É familiar, para nós, a imagem de uma pessoa sozinha, perdida em teias de links, desejando que o outro — molesto, incômodo, pautado por responsabilidades em que ela não se reconhece — deixe de existir.

Uma hipótese é a da adesão dos produtores da peça a certo feminismo radical. Não sei se o apagamento de Creonte tem a ver com sinalizar o fim do macho dominante, expressão do patriarcado. Nada li a esse respeito. Creonte, no ponto mais alto de sua ira, dá vazão a um tipo de misoginia que supomos muito renitente nas sociedades gregas, com ecos até hoje. Mas é essa uma possibilidade de interpretação que me interessa menos.

Se não estou enganado, portanto, a coisa não é só mera anedota. Efetivamente, entender a posição do outro e ver nela alguma legitimidade tem sido uma tarefa árdua. A coisa pode ser um sinal a mais do enviesamento progressivo por que está passando bastante gente. Ou ainda, do modo como muitos têm deslizado, insensivelmente, para formas extremas de individualismo. Um individualismo absolutista ou autoritário.

Sim, é uma expressão de autoritarismo encarar com naturalidade a invisibilidade do outro — e ainda é pior desejá-la. É autoritarismo, mesmo que inconsciente. Mesmo que ornado com os louros das melhores intenções. Mesmo quando dá likes ou boas hashtags. É autoritarismo, mesmo em se tratando do modo como se lê ficção.

No fundo, está-se falando de uma invisibilidade de faz-de-conta, sem dúvida. Porque o outro continua no mesmo lugar, vivendo, gesticulando, acreditando no que acredita. Dito de outra forma: Creonte desapareceu da montagem contemporânea da peça assim como muitos de nós desejariam — ou desejaríamos — que aqueles que não compartilham nossos valores simplesmente sumissem do mapa.

O fenômeno, que não é apenas brasileiro, tem uma de suas manifestações correntes naquilo que tem sido denominado “cultura do cancelamento” (cancel culture). Àquele(s) que comete(m) uma falta considerada grave por um grupo, a sentença é o cancelamento — i.e., a busca do extermínio da imagem pública do(s) indivíduo(s) nas redes sociais.

O termo coisifica o ser humano: cancelam-se aplicativos, assinaturas de jornal, séries de TV ruins, não pessoas.

Dias atrás, o ator Chay Suede foi alvo de uma campanha que buscava “cancelá-lo” por meio de boicotes e unfollows em massa. O motivo da ira coletiva foi a maneira nem um pouco cortês (coloquemos assim) como ele teria tratado sua ex-namorada, a cantora Manu Gavassi. Teria dito à jovem coisas inomináveis, que deixariam claro que ela era dispensável na vida dele.

Não tenho interesse na vida sentimental dessas celebridades, as quais eu não reconheceria na rua. Por isso, não são os nomes que importam, apenas as feições gerais do ocorrido. É quase desnecessário dizer que ninguém deve tratar uma pessoa do seu convívio como rebotalho, como lixo. Gostamos de respeito e costumamos desejá-lo às outras pessoas.

Também gostamos — ou costumávamos gostar — de discrição e privacidade.

A questão aqui é que um suposto fato da vida privada dos dois foi tornado público em um programa televisivo de alcance nacional, o Big Brother Brasil, o que deu azo a uma campanha de humilhação coletiva.

É difícil que me venha à mente alguma forma de violência interpessoal que seja pior do que violência de grupo. Uma cafajestice, por exemplo, diz respeito a um casal. É algo ignóbil — i.e., “não nobre” — , mas não um crime (que é um problema social). Um linchamento, apesar de simbólico, envolve o contágio de muitas pessoas por aquilo a que Espinosa chamava paixões tristes: emoções violentas que aniquilam o ser — porque aprisionam, destroem a liberdade. Além de não darem ao “cancelado” nenhuma chance de defesa.

Na interface entre o mundo da cultura e o da política, o fascínio da invisibilidade se delineou de outra maneira em outro episódio recente, que tem relação com os limites do humor. No final do ano passado, a trupe Porta dos Fundos levou ao ar, via Netflix, seu especial de Natal: “A primeira tentação de Cristo”. Como ninguém ignora, era um material potencialmente ofensivo à sensibilidade religiosa da maioria dos cristãos. Pelo que li, Jesus era retratado na atração como homossexual, Maria como promíscua. Não foram poucos os que ressaltaram a produção tosca e a falta de graça das piadas.

Não é o tipo de humor que me atrai. Longe de mim, contudo, desejar a censura do programa. Um bom número dos que se sentiram atingidos externaram sua indignação e propuseram um boicote à Netflix. Estão no seu direito, que é tão defensável quanto o da liberdade artística, o que inclui ridicularizar figuras religiosas. O ordenamento constitucional brasileiro contempla, por extensão, o direito à blasfêmia e ao humor grosseiro, por feios que possam parecer. Nesse sentido, uma democracia como a nossa tem virtudes superiores à dos gregos, em que havia punições por impiedade. Diz-se que Ésquilo, por exemplo, sofreu sanções por ter revelado os mistérios de Elêusis em algumas de suas peças.

Não é uma expectativa racional supor que pessoas de outra religião ou de diversa mentalidade sejam reverentes aos nossos valores ou respeitosas com nossos mestres ou ídolos. Pode ser enervante, sem dúvida. Entendo o que levou cidadãos a buscar a Justiça pelo “ultraje a símbolos religiosos” no programa da Porta dos Fundos. Entendo, mas não aprovo. Não cabe em uma democracia como a nossa. E também porque, se não estou enganado, esse tipo de movimento é mais uma tentativa de tornar invisível — e neste caso ilegal — algo que diz respeito à visão do mundo do outro. Em suma, é mais uma forma de “cancelamento”.

Com efeito, o desembargador Benedicto Abicair (RJ), atendendo a pedido do Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, associação católica tradicionalista, determinou a remoção do vídeo da Netflix. A plataforma recorreu um dia depois e obteve, em 9 de janeiro deste ano, a revogação da liminar pelo STF. Abcair argumentava que sua decisão procurava “acalmar os ânimos”. A produtora da Porta dos Fundos fora atacada em 24 de dezembro de 2019 por coquetéis molotov. Incidente isolado e sem consequências graves, mas preocupante. Ali, a busca pelo “cancelamento” atingiu um paroxismo violento.

Antígona pode nos ensinar muitas coisas sobre o modo como temos gerido os conflitos em nossa democracia. Se observarmos o embate que envolveu defensores e detratores do especial natalino da Porta dos Fundos, notamos que as acusações de hipocrisia voaram de parte a parte.

Coisa curiosa, aliás, é que a crítica à hipocrisia é um ponto central da moral pública do cristianismo, dada a oposição de Jesus aos fariseus e aos escribas e sua forma de espiritualidade apenas exterior. É como se todos os mais exaltados, de religiosos a não religiosos, concordassem com o fato de a hipocrisia ser o maior dos pecados, desejando vê-lo nos outros, mas muito raramente em si mesmos.

“Por que não zombam de Maomé e dos símbolos islâmicos?”, perguntavam os religiosos. “Por que vocês não se incomodam com os mercadores da fé, mas ficam tão melindrados com uma sátira?”, lançavam os irridentes. Não havia terreno comum entre os grupos, o que não raro pode prenunciar o recurso à violência. Como Creonte e Antígona, as duas facções simplesmente não entendiam o ponto de vista uma da outra. Não faziam questão disso, aliás.

O patetismo do desfecho da peça de Sófocles é uma ilustração de que, nos conflitos individuais e sociais, quase nunca importa saber quem tem a razão. Porque a ira e o ódio, apesar de combustíveis para a ação, são lugares de “não razão”, como nos ensinavam os antigos. As consequências se impõem tanto para quem tende mais para o certo quanto mais para o errado. É a insistência cega que é capaz de gerar efeitos nefastos — sendo um deles o de imaginar ou buscar a invisibilidade da outra parte. E é muito difícil se livrar da insistência cega e migrar para atitudes mais flexíveis e clarividentes.

Quando as pessoas não se entendem umas às outras, é fácil pular para a fase de transformar outrem em um pérfido que precisa ser rasurado, eliminado. Ou uma “coisa” que podemos “cancelar” de nossas vidas, para qual se pode dar um block.

E igualmente fácil é atrair a destruição. A casa real de Tebas é totalmente arrasada pelo conflito entre Antígona e Creonte, dois obstinados. É apenas um homem destroçado o que sobra de pé, ao final da peça.

O Coro, este grande silenciado pela tradição moderna do teatro, remata os versos dizendo, na tradução de Mário da Gama Kury:

A desmedida empáfia nas palavras

reverte em desmedidos golpes

contra os soberbos que, já na velhice,

aprendem afinal prudência. [vv. 1489–92]

A phrónēsis (ou prudência), pois, como remédio à megalomania de se crer sozinho ou dotado de uma existência mais legítima no mundo.

Donato S. Ferrara

Written by

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

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